CRIA - Centro de Referência em Informação Ambiental
Luiza F. A. de Paula, Nara F. O. Mota & Lívia Echternacht
Flores desidratadas de sempre-vivas (2012), de Lívia EchternarchtCRIA - Centro de Referência em Informação Ambiental
Por que se chamam sempre-vivas? Nunca morrem?
Sempre-viva é o nome popular dado a várias espécies de plantas que, após coletadas e desidratadas, suas flores conseguem resistir consideravelmente ao tempo sem perder sua cor ou sua forma, daí a origem do nome “sempre viva”.
Quem são as sempre-vivas?
As sempre-vivas mais comuns e conhecidas pertencem especialmente às famílias de plantas das euriocauláceas e xyridáceas.
Flora Brasiliensis: Vol. I, Part I, Fasc. See Urban Plate 4 (1906)CRIA - Centro de Referência em Informação Ambiental
Onde ocorrem?
As sempre-vivas são comuns no Cerrado, bioma que compreende formações vegetais campestres, savânicas e florestais. Nesta prancha da Flora Brasiliensis - obra resultante da viagem dos naturalistas Spix e Martius pelo Brasil (1817-1820) - o Cerrado é representado.
Sempre-vivas no Cerrado
Um olhar cuidadoso nesta imagem nos leva a uma espécie de sempre-viva, da família das eriocauláceas.
Sempre-vivas & Canelas-de-ema
No Cerrado, é comum encontrar as sempre-vivas co-ocorrendo com as canelas-de-ema, nome popular dado às espécies da família das velloziáceas, que são ervas de caule ereto e com poucas ramificações, de porte arborescente.
Campos de Actinocephalus (Eriocaulaceae) (2012), de Lívia EchternarchtCRIA - Centro de Referência em Informação Ambiental
Sempre-vivas nos campos rupestres
Contudo, é nos campos rupestres que as sempre-vivas dominam, ecossistemas encontrados sobre topos de serras e chapadas. O Espinhaço, um conjunto de serras ou cordilheira que se estende pelos estados de Minas Gerais e Bahia, é o centro de diversidade das sempre-vivas.
Primeiras descrições científicas
A obra "Flora Brasiliensis" trouxe muitas descrições científicas de novas espécies de sempre-vivas. Na imagem, é apresentado o Paepalanthus chiquitensis, uma eriocaulácea.
Muitas espécies de eriocauláceas foram ricamente ilustradas na obra Flora Brasiliensis. Esse grupo de plantas seguramente chamou a atenção de Martius, o que pode ser percebido nesse trecho do livro Viagem pelo Brasil, quando ele descreve os campos rupestres de Diamantina/MG: "Por entre as gramíneas peludas, verde-cinzentas, que, em grandes extensões, revestem as planícies deste Distrito, sobretudo são as Eriocauláceas que estão em grande número, com as suas umbelas de flores alvas pequeninas".
Vol. III, Part I, Fasc. 33 Plate 50 (1863-07-10)CRIA - Centro de Referência em Informação Ambiental
Eriocauláceas
As espécies da família Eriocaulaceae possuem flores brancas, que se organizam numa inflorescência chamada capítulo e são polinizadas pelo vento. São geralmente ervas perenes, ou seja, elas duram por mais de um ciclo sazonal.
Flor de farinha
Paepalanthus, gênero bem representativo da família, significa "flor de farinha", em referência às inflorescências brancas que costuma desprender seus pêlos branquinhos, parecendo uma farinha.
A magnífica
Os gêneros de eriocauláceas mais buscados de sempre-vivas são Comanthera e Paepalanthus. Na imagem é apresentada Comanthera magnifica, exemplo de espécie micro-endêmica, de ocorrência muito restrita, que sofre forte pressão de coleta extrativista.
Vol. III, Part I, Fasc. 15 Plate 22 (1855-09-15)CRIA - Centro de Referência em Informação Ambiental
Xyridáceas
A família Xyridaceae é encontrada em solos brejosos e úmidos. O gênero Xyris se destaca no Brasil, e suas espécies ocorrem como terrestres em campos-cerrados, campos rupestres ou como aquáticas.
Campo de sempre-vivas (Xyridaceae) (2012), de Pedro L. VianaCRIA - Centro de Referência em Informação Ambiental
Campo de xyridáceas
As inflorescências das Xyris são espigas que possuem flores amarelas.
A coroinha
Várias espécies de Xyris são comercializadas como “sempre-vivas”. Xyris cipoensis é uma espécie muito ornamental, sua inflorescência possui cor amarelo-dourada e sua forma lembra uma coroa semelhante à do abacaxi, por isso, é conhecida como "abacaxi-dourado" ou "coroinha".
Fragmentação do cerrado, de Rui RezendeFonte original: https://www.decorarcomfoto.com.br/
Perda de habitat
O Cerrado e os campos rupestres vêm sendo rapidamente substituídos por monoculturas, rodovias e aglomerações urbanas, ou degradados pelo fogo. Por apresentarem ocorrência muito restrita, várias sempre-vivas estão em perigo de extinção devido à acelerada perda de seu habitat.
As sempre-vivas são extraídas da natureza ou podem ser cultivadas. Os apanhadores da Serra do Espinhaço mostram que é possível fazer uso sustentável dessas plantas. Essa tradição centenária das comunidades locais passou a ser reconhecida pela Organização das Nações Unidas para a Alimentação e a Agricultura (FAO) como patrimônio agrícola mundial. Ali, as sempre-vivas participam de uma rede de associações que conecta científico e político, tradicional e moderno, acadêmico e popular.
As plantas são comercializadas 'in natura' (no kilo) ou como artesanato. São confeccionados arranjos de flores, pulseiras, brincos, chaveiros e decoração em geral. O artesanato permite valorizar mais o trabalho dos artesãos e as espécies de plantas. Sempre-vivas, elas embelezam a vida.
Pesquisa e redação: Luiza F. A. de Paula (Universidade Federal de Minas Gerais / CRIA), Nara F. O. Mota & Lívia Echternacht (Universidade Federal de Ouro Preto)
Montagem: Luiza F. A. de Paula
Revisão: João Renato Stehmann (Universidade Federal de Minas Gerais), Renato De Giovanni (CRIA)
Referências: Flora Brasiliensis (http://florabrasiliensis.cria.org.br/opus), Viagem pelo Brasil (https://www2.senado.leg.br/bdsf/handle/id/573991)
Informações adicionais: http://florabrasiliensis.cria.org.br/stories
Agradecimentos: Todos os autores das fotos e personagens da história
*Todos os esforços foram feitos para creditar as imagens, áudios e vídeos e contar corretamente os episódios narrados nas exposições. Caso encontre erros e/ou omissões, favor entrar em contato pelo e-mail contato@cria.org.br