CRIA - Centro de Referência em Informação Ambiental
Luiza F. A. de Paula & Fernanda A. Carvalho
Ilhas Galápagos (2021), de European Space AgencyFonte original: Wikimedia Commons
Ilhas oceânicas
Durante muito tempo, as ilhas oceânicas cativaram a atenção de pesquisadores por se tratarem de um ótimo modelo para estudos biogeográficos e evolutivos.
Parque Nacional de Itatiaia (2013), de Luiza de PaulaCRIA - Centro de Referência em Informação Ambiental
Ilhas terrestres
Sabendo desse potencial de estudo de ambientes isolados, cientistas passaram a olhar também para outro tipo de ilha, as terrestres, como as montanhas. Assim como as ilhas oceânicas, elas também diferem da matriz onde estão inseridas e apresentam baixo intercâmbio de espécies.
Montanhas de pedra isoladas (monólitos) que surgem abruptamente na paisagem - de composição principalmente de rochas graníticas e/ou gnáissicas - são denominadas inselbergs (do alemão, insel = ilha e berg = montanha). No Brasil, quando apresentam formato arredondado e estão inseridas em uma matriz florestal, são chamadas de ‘pães de açúcar’. Essas formações datam de milhões de anos e estão distribuídas por todos os continentes, sendo os trópicos centros de sua diversidade biológica.
O termo ‘Pão de Açúcar’ dado à montanha do Rio de Janeiro data da época da colonização portuguesa. Durante a fabricação do açúcar, os cristais aglutinados eram retirados de fôrmas cônicas em blocos, que tomavam o formato delas. Esse processo guardava semelhança com a produção do pão que também era assado em fôrmas, e, assim, por analogia, passou-se a chamar de ‘pão de açúcar’ o cristal obtido. Adiante, a montanha carioca e monólitos cônicos foram batizados com o mesmo nome devido às suas formas.
Flora Brasiliensis: Vol. I, Part I, Fasc. See Urban Plate 19 (1906)CRIA - Centro de Referência em Informação Ambiental
Cativando naturalistas ao redor do mundo
Os naturalistas alemães, Spix e Martius, em sua viagem pelo Brasil (1817-1820), registraram nessa prancha da Flora Brasiliensis a paisagem do Rio de Janeiro, com seus emblemáticos inselbergs, que seguramente são responsáveis por todo o encantamento da ‘cidade maravilhosa'.
No livro Viagem pelo Brasil, Martius escreveu sobre os 'Passeios pelos arredores do Rio de Janeiro': “Junto da cascata Carioca, o caminho afasta-se do aqueduto e passa por uma elevação seca, cheia de arbustos e árvores baixas, e torna pela mata virgem, que reveste a encosta do Corcovado. (...) Para os lados do sul, a montanha é cortada a prumo, e o olhar se perde no abismo profundo, orlado pela baía azul de Botafogo em redor; mais além, eleva-se o atrevido cone de rochas do Pão de Açúcar".
Pães de açúcar (2016), de Luiza de PaulaCRIA - Centro de Referência em Informação Ambiental
Pães de açúcar em Minas Gerais
Contudo, além do Rio de Janeiro com monólitos como o 'Pão de Açúcar', a Gávea e o Corcovado, mais regiões abrigam aglomerados magnificentes de outros pães de açúcar, que são desconhecidos pela maioria. Um exemplo é a região nordeste de Minas Gerais, como mostra a imagem.
Terra dos pães de açúcar (2016), de Luiza de PaulaCRIA - Centro de Referência em Informação Ambiental
Pães de açúcar no Espírito Santo
O Monumento Natural dos Pontões Capixabas, no estado do Espírito Santo, é a única unidade de conservação brasileira que abriga um número considerável desse tipo de formações rochosas dentro da Mata Atlântica.
Rocha nua?
Os pães de açúcar possuem condições ambientais extremas, como altas temperaturas, pouco (ou nenhum) solo e baixa retenção de água. Por essas razões, é comum que as pessoas tenham a impressão de que as encostas dessas montanhas são simplesmente rochas nuas.
Contudo, essas montanhas guardam uma biodiversidade a que poucos estão acostumados. Várias espécies de cianobactérias – parte dos primeiros grupos de organismos que surgiram na Terra há milhões de anos – formam crostas sobre a rocha, dando a coloração acinzentada que visualizamos. Há também grupos de plantas bem pequenas, como as briófitas, e líquens (fungos e algas) que se aderem à superfície. Logo, não existem rochas realmente nuas, mas encostas cobertas por um manto de microorganismos.
Os seres vivos capazes de sobreviver nesses locais apresentam diferentes tipos de adaptações, pois precisam suportar, por exemplo, temperaturas que atingem mais de 60°C. Existem plantas capazes de se aderirem diretamente à rocha, sem fissuras ou solo, que escalam paredões verticais e são chamadas de hiperepilíticas (do inglês, hyperepilithics). Exemplos são bromélias do gênero Stigmatodon.
Tapetes de bromélias (2016), de Luiza de PaulaCRIA - Centro de Referência em Informação Ambiental
Tapetes
Outras plantas, por se reproduzirem de forma clonal e possuírem raízes especializadas, formam extensas coberturas sobre a rocha que se assemelham a tapetes.
Tapetes de bromélias (2016), de Luiza de PaulaCRIA - Centro de Referência em Informação Ambiental
Tapetes
No Brasil, principalmente na região Sudeste, bromélias, orquídeas e cactos compõem essa ‘malha’ de vegetação sobre a rocha.
Suculência e pilosidades
Os cactos, por sua vez, além de serem suculentos (acumularem água em seus tecidos), também apresentam espinhos (folhas modificadas) e pêlos, especialmente em suas bases, evitando o superaquecimento do contato direto com a rocha.
Outra estratégia curiosa é a tolerância à dessecação. Algumas plantas dos pães de açúcar, como ciperáceas, samambaias e canelas-de-ema, têm a capacidade de se desidratar e rehidratar diversas vezes, dependendo da disponibilidade de água. Devido a essa habilidade, elas são chamadas de "plantas de ressurreição".
Plantas ornamentais dos pães de áçúcar (2016), de Luiza de PaulaCRIA - Centro de Referência em Informação Ambiental
Plantas nativas e ornamentais
Os pães de açúcar, além de terem plantas com estratégias de sobrevivência incríveis, também apresentam espécies nativas com alto potencial ornamental. Elas pertencem, por exemplo, às famílias das orquídeas, begônias, bromélias, amarílis, canelas-de-ema, apocináceas e dos cactos.
Em diversas regiões do Brasil, por não serem considerados áreas prioritárias para conservação, essas formações rochosas sofrem sérias ameaças. A mineração, a coleta ilegal de plantas ornamentais, o fogo, a invasão de espécies exóticas (não originárias desses locais) e o crescimento de centros urbanos têm contribuído para a destruição da vegetação natural desses ambientes. Até mesmo no icônico 'Pão de Açúcar', do Rio de Janeiro, construtoras almejam fazer tirolesa e shopping center em seu cume.
Terra dos pães de açúcar (2016), de Luiza de PaulaCRIA - Centro de Referência em Informação Ambiental
Por que preservar?
Os pães de açúcar apresentam plantas altamente especializadas que só ocorrem sobre a rocha exposta. Ainda, em um contexto em que restam apenas 7-11% de Mata Atlântica original, essas montanhas se destacam por servirem de refúgio para fragmentos praticamente intactos desse bioma.
Tapetes sobre a rocha (2016), de Luiza de PaulaCRIA - Centro de Referência em Informação Ambiental
Alta diversidade biológica
Os pães de açúcar são, portanto, ilhas terrestres detentoras de alta diversidade biológica.
Pesquisa e redação: Luiza F. A. de Paula (UFMG / CRIA) & Fernanda A. Carvalho (UFMG)
Montagem: Luiza F. A. de Paula
Revisão: Renato De Giovanni (CRIA)
Referências: Flora Brasiliensis (http://florabrasiliensis.cria.org.br/opus), Viagem pelo Brasil (https://www2.senado.leg.br/bdsf/handle/id/573991)
Informações adicionais: http://florabrasiliensis.cria.org.br/stories
Agradecimentos: Todos os autores das imagens e personagens da história.
*Todos os esforços foram feitos para creditar as imagens, áudios e vídeos e contar corretamente os episódios narrados nas exposições. Caso encontre erros e/ou omissões, favor entrar em contato pelo e-mail contato@cria.org.br