CRIA - Centro de Referência em Informação Ambiental

Luiza F. A. de Paula & Fernanda A. Carvalho

Pães de açúcar na Mata Atlântica

Essas formações rochosas, distribuídas especialmente no sudeste do Brasil, são refúgios de alta biodiversidade

Ler

Ilhas Galápagos (2021), de European Space AgencyFonte original: Wikimedia Commons

Ilhas oceânicas

Durante muito tempo, as ilhas oceânicas cativaram a atenção de  pesquisadores por se tratarem de um ótimo modelo para estudos biogeográficos e evolutivos.

Parque Nacional de Itatiaia (2013), de Luiza de PaulaCRIA - Centro de Referência em Informação Ambiental

Ilhas terrestres

Sabendo desse potencial de estudo de ambientes isolados, cientistas passaram a olhar também para outro tipo de ilha, as terrestres, como as montanhas. Assim como as ilhas oceânicas, elas também diferem da matriz onde estão inseridas e apresentam baixo intercâmbio de espécies.

Pães de açúcar, Luiza de Paula, 2016, Da coleção de: CRIA - Centro de Referência em Informação Ambiental
,
Afloramento rochoso em forma de cúpula, Luiza de Paula, 2016, Da coleção de: CRIA - Centro de Referência em Informação Ambiental
Mostrar menosMais informações

Montanhas de pedra isoladas (monólitos) que surgem abruptamente na paisagem - de composição principalmente de rochas graníticas e/ou gnáissicas - são denominadas inselbergs (do alemão, insel = ilha e berg = montanha). No Brasil, quando apresentam formato arredondado e estão inseridas em uma matriz florestal, são chamadas de ‘pães de açúcar’. Essas formações datam de milhões de anos e estão distribuídas por todos os continentes, sendo os trópicos centros de sua diversidade biológica.         

Pão de Açúcar no Rio de Janeiro, Leandro Cardoso, 2016, Da coleção de: CRIA - Centro de Referência em Informação Ambiental
,
Fôrma cônica, Leandro Cardoso, Da coleção de: CRIA - Centro de Referência em Informação Ambiental
Mostrar menosMais informações

O termo ‘Pão de Açúcar’ dado à montanha do Rio de Janeiro data da época da colonização portuguesa. Durante a fabricação do açúcar, os cristais aglutinados eram retirados de fôrmas cônicas em blocos, que tomavam o formato delas. Esse processo guardava semelhança com a produção do pão que também era assado em fôrmas, e, assim, por analogia, passou-se a chamar de ‘pão de açúcar’ o cristal obtido. Adiante, a montanha carioca e monólitos cônicos foram batizados com o mesmo nome devido às suas formas.

Flora Brasiliensis: Vol. I, Part I, Fasc. See Urban Plate 19 (1906)CRIA - Centro de Referência em Informação Ambiental

Cativando naturalistas ao redor do mundo

Os naturalistas alemães, Spix e Martius, em sua viagem pelo Brasil (1817-1820), registraram nessa prancha da Flora Brasiliensis a paisagem do Rio de Janeiro, com seus emblemáticos inselbergs, que seguramente são responsáveis por todo o encantamento da ‘cidade maravilhosa'.

Flora Brasiliensis: Vol. I, Part I, Fasc. See Urban Plate 20, 1906, Da coleção de: CRIA - Centro de Referência em Informação Ambiental
,
Flora Brasiliensis: Vol. I, Part I, Fasc. See Urban Plate 55, 1906, Da coleção de: CRIA - Centro de Referência em Informação Ambiental
Mostrar menosMais informações

No livro Viagem pelo Brasil, Martius escreveu sobre os 'Passeios pelos arredores do Rio de Janeiro': “Junto da cascata Carioca, o caminho afasta-se do aqueduto e passa por uma elevação seca, cheia de arbustos e árvores baixas, e torna pela mata virgem, que reveste a encosta do Corcovado. (...) Para os lados do sul, a montanha é cortada a prumo, e o olhar se perde no abismo profundo, orlado pela baía azul de Botafogo em redor; mais além, eleva-se o atrevido cone de rochas do Pão de Açúcar".

Pães de açúcar (2016), de Luiza de PaulaCRIA - Centro de Referência em Informação Ambiental

Pães de açúcar em Minas Gerais

Contudo, além do Rio de Janeiro com monólitos como o 'Pão de Açúcar', a Gávea e o Corcovado, mais regiões abrigam aglomerados magnificentes de outros pães de açúcar, que são desconhecidos pela maioria. Um exemplo é a região nordeste de Minas Gerais, como mostra a imagem.

Terra dos pães de açúcar (2016), de Luiza de PaulaCRIA - Centro de Referência em Informação Ambiental

Pães de açúcar no Espírito Santo

O Monumento Natural dos Pontões Capixabas, no estado do Espírito Santo, é a única unidade de conservação brasileira que abriga um número considerável desse tipo de formações rochosas dentro da Mata Atlântica.

Encosta rochosa (2016), de Luiza de PaulaCRIA - Centro de Referência em Informação Ambiental

Rocha nua?

Os pães de açúcar possuem condições ambientais extremas, como altas temperaturas, pouco (ou nenhum) solo e baixa retenção de água. Por essas razões, é comum que as pessoas tenham a impressão de que as encostas dessas montanhas são simplesmente rochas nuas. 

Musgos na rocha, Luiza de Paula, 2016, Da coleção de: CRIA - Centro de Referência em Informação Ambiental
,
Líquens, Luísa Azevedo, 2016, Da coleção de: CRIA - Centro de Referência em Informação Ambiental
,
Líquens na rocha, Luísa Azevedo, 2016, Da coleção de: CRIA - Centro de Referência em Informação Ambiental
Mostrar menosMais informações

Contudo, essas montanhas guardam uma biodiversidade a que poucos estão acostumados. Várias espécies de cianobactérias – parte dos primeiros grupos de organismos que surgiram na Terra há milhões de anos – formam crostas sobre a rocha, dando a coloração acinzentada que visualizamos. Há também grupos de plantas bem pequenas, como as briófitas, e líquens (fungos e algas) que se aderem à superfície. Logo, não existem rochas realmente nuas, mas encostas cobertas por um manto de microorganismos.

Bromélia escaladora de rocha, Luiza de Paula, 2016, Da coleção de: CRIA - Centro de Referência em Informação Ambiental
,
Bromélia escaladora de rocha, Luiza de Paula, 2016, Da coleção de: CRIA - Centro de Referência em Informação Ambiental
Mostrar menosMais informações

Os seres vivos capazes de sobreviver nesses locais apresentam diferentes tipos de adaptações, pois precisam suportar, por exemplo, temperaturas que atingem mais de 60°C. Existem plantas capazes de se aderirem diretamente à rocha, sem fissuras ou solo, que escalam paredões verticais e são chamadas de hiperepilíticas (do inglês, hyperepilithics). Exemplos são bromélias do gênero Stigmatodon.

Tapetes de bromélias (2016), de Luiza de PaulaCRIA - Centro de Referência em Informação Ambiental

Tapetes

Outras plantas, por se reproduzirem de forma clonal e possuírem raízes especializadas, formam extensas coberturas sobre a rocha que se assemelham a tapetes.

Tapetes de bromélias (2016), de Luiza de PaulaCRIA - Centro de Referência em Informação Ambiental

Tapetes

No Brasil, principalmente na região Sudeste, bromélias, orquídeas e cactos compõem essa ‘malha’ de vegetação sobre a rocha.

Cactos (2013), de Luiza de PaulaCRIA - Centro de Referência em Informação Ambiental

Suculência e pilosidades

Os cactos, por sua vez, além de serem suculentos (acumularem água em seus tecidos), também apresentam espinhos (folhas modificadas) e pêlos, especialmente em suas bases, evitando o superaquecimento do contato direto com a rocha.

Planta tolerante à dessecação, Luiza de Paula, 2016, Da coleção de: CRIA - Centro de Referência em Informação Ambiental
,
Planta tolerante à dessecação, Luiza de Paula, 2016, Da coleção de: CRIA - Centro de Referência em Informação Ambiental
Mostrar menosMais informações

Outra estratégia curiosa é a tolerância à dessecação. Algumas plantas dos pães de açúcar, como ciperáceas, samambaias e canelas-de-ema, têm a capacidade de se desidratar e rehidratar diversas vezes, dependendo da disponibilidade de água. Devido a essa habilidade, elas são chamadas de "plantas de ressurreição".

Plantas ornamentais dos pães de áçúcar (2016), de Luiza de PaulaCRIA - Centro de Referência em Informação Ambiental

Plantas nativas e ornamentais

Os pães de açúcar, além de terem plantas com estratégias de sobrevivência incríveis, também apresentam espécies nativas com alto potencial ornamental. Elas pertencem, por exemplo, às famílias das orquídeas, begônias, bromélias, amarílis, canelas-de-ema, apocináceas e dos cactos.

Blocos de granito, Luiza de Paula, 2016, Da coleção de: CRIA - Centro de Referência em Informação Ambiental
,
Crescimento urbano, Luiza de Paula, 2016, Da coleção de: CRIA - Centro de Referência em Informação Ambiental
Mostrar menosMais informações

Em diversas regiões do Brasil, por não serem considerados áreas prioritárias para conservação, essas formações rochosas sofrem sérias ameaças. A mineração, a coleta ilegal de plantas ornamentais, o fogo, a invasão de espécies exóticas (não originárias desses locais) e o crescimento de centros urbanos têm contribuído para a destruição da vegetação natural desses ambientes. Até mesmo no icônico 'Pão de Açúcar', do Rio de Janeiro, construtoras almejam fazer tirolesa e shopping center em seu cume.

Terra dos pães de açúcar (2016), de Luiza de PaulaCRIA - Centro de Referência em Informação Ambiental

Por que preservar?

Os pães de açúcar apresentam plantas altamente especializadas que só ocorrem sobre a rocha exposta. Ainda, em um contexto em que restam apenas 7-11% de Mata Atlântica original, essas montanhas se destacam por servirem de refúgio para fragmentos praticamente intactos desse bioma.

Tapetes sobre a rocha (2016), de Luiza de PaulaCRIA - Centro de Referência em Informação Ambiental

Alta diversidade biológica

Os pães de açúcar são, portanto, ilhas terrestres detentoras de alta diversidade biológica.

Créditos: história

Pesquisa e redação: Luiza F. A. de Paula (UFMG / CRIA) & Fernanda A. Carvalho (UFMG)
Montagem: Luiza F. A. de Paula
Revisão: Renato De Giovanni (CRIA)
Referências: Flora Brasiliensis (http://florabrasiliensis.cria.org.br/opus), Viagem pelo Brasil (https://www2.senado.leg.br/bdsf/handle/id/573991)
Informações adicionais: http://florabrasiliensis.cria.org.br/stories
Agradecimentos: Todos os autores das imagens e personagens da história.

*Todos os esforços foram feitos para creditar as imagens, áudios e vídeos e contar corretamente os episódios narrados nas exposições. Caso encontre erros e/ou omissões, favor entrar em contato pelo e-mail contato@cria.org.br

Créditos: todas as mídias
Em alguns casos, é possível que a história em destaque tenha sido criada por terceiros independentes. Portanto, ela pode não representar as visões das instituições, listadas abaixo, que forneceram o conteúdo.