Martius e as árvores que nasceram antes de Cristo na Amazônia

Um passeio botânico pela litografia n. 9 da Flora Brasiliensis

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Flora Brasiliensis: Vol. I, Part I, Fasc. See Urban Plate 9 (1906)CRIA - Centro de Referência em Informação Ambiental

Flora brasiliensis

A Flora Brasiliensis é um marco da botânica mundial. Embora iniciada em 1840, seu volume 1 foi publicado por último, em 1906, com 59 gravuras de paisagens brasileiras. Nesta história, embarcaremos em um “passeio botânico” por uma delas, destacando suas plantas.

Floresta de terra firme

No dia 4 de outubro de 1819, acompanhado de Spix e de uma grande equipe de indígenas, o botânico von Martius partiu de Vila Nova da Rainha (hoje Parintins, no Pará) em direção ao sul, com o objetivo de coletar suas primeiras amostras em uma floresta de terra firme da Amazônia.

Chegando ao local, os indígenas gritaram “Aique caâ-etê”, ou seja, “esta é a selva primitiva”. Era uma floresta misteriosa e sombria, com árvores de porte imenso e copas altíssimas, enredando-se numa trama tão apertada que só raramente os raios de sol encontravam passagem.

Chamou a atenção o fato de não haverem muitas árvores, arbustos ou ervas no estrato inferior da floresta. Mas o que mais impressionou Martius foram aquelas três árvores gigantes que excediam todas as outras. "Eu jamais vira coisa igual!"

“Ordenamos que nove indigenas abraçassem a árvore, mas eles não foram suficientes. Foram necessários 15 homens para abraça-la. A circunferência chegava a 25,5 metros na base do tronco." As raízes tabulares eram enormes e se espalhavam por uma grande área ao redor das árvores.

Martius estimou que essas árvores gigantes teriam entre 2052 e 4104 anos, o que significa que elas já estavam aí desde muito antes de Cristo. "Civilizações inteiras surgiram e desapareceram sem deixar qualquer vestígio [...], e essas árvores continuam vivendo os seus dias."

As três árvores pareciam ser da mesma espécie, mas seu nome permanece uma incognita. Suas copas altíssimas, a cerca de 30 metros, não permitiram que os estudiosos coletassem uma amostra para identificá-la. Os nativos as chamavam de “jataí” ou “jutaí” (talvez Hymenaea coubaril).

No canto inferior esquerdo vemos a “araruta” (Maranta arundinacea), espécie muito utilizada pelos indígenas para a confecção de cestos, caixas e outros utensílios. Ali perto também vemos algumas bromélias (talvez Aechmea penduliflora) e uma arácea (Homalomena erythropus).

A árvore morta que aparece em destaque é um "cipó-matador" ou "mata-pau" (Ficus sp.). Trata-se de uma planta parasita que geralmente envolve o tronco das árvores hospedeiras ao ponto de sufocá-las até a morte.

O "araçá-da-mata" (Eugenia muricata), que aparece ao lado de uma das árvores gigantes, provavelmente foi semeado por algum mamífero, talvez um macaco. Ela deve ter cerca de 200 anos e em outro lugar pareceria uma árvore grande, mas aqui, perto das outras, parece até um arbusto.

Do outro lado, vemos duas palmeiras de “açaí” (Euterpe oleracea). Seus frutos são consumidos como alimento ou bebida e seu palmito é amplamente explorado como iguaria. Suas folhas e troncos têm inúmeras utilidades importantes e suas sementes limpas podem ser usadas no artesanato.

Apesar das alterações ambientais provocadas pelos homens nos últimos tempos, a Amazônia ainda abriga inúmeras árvores ancestrais. Algumas dessas árvores são absolutamente gigantes, como é o caso do angelim-vermelho, da castanheira e da sumaúma. Não deixemos que desapareçam!

Créditos: história

Pesquisa e redação: Fernando B. Matos (CRIA)
Montagem: Fernando B. Matos (CRIA)
Revisão: Renato De Giovanni (CRIA)
Referências: Flora Brasiliensis (http://florabrasiliensis.cria.org.br/opus); Viagem pelo Brasil (https://www2.senado.leg.br/bdsf/handle/id/573991)
Informações adicionais: https://historias.cria.org.br
Agradecimentos: Esta história foi baseada no texto explicativo que acompanha a litografia n. 9 da Flora Brasiliensis (Martius 1906: 22-30).

*Todos os esforços foram feitos para creditar as imagens, áudios e vídeos e contar corretamente os episódios narrados nas exposições. Caso encontre erros e/ou omissões, favor entrar em contato pelo e-mail contato@cria.org.br

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