CRIA - Centro de Referência em Informação Ambiental
Ariane Luna Peixoto & Fernando B. Matos
Flora Brasiliensis: Vol. I, Part I, Fasc. 130 Column 1000 (1906-04-01)CRIA - Centro de Referência em Informação Ambiental
Nos séculos anteriores ao XX, a participação de mulheres na ciência, particularmente na botânica, era escassa. A monumental obra Flora Brasiliensis, idealizada e inicialmente editada por Martius, é uma prova disso.
Na Flora Brasiliensis são tratadas 22.767 espécies, das quais 5.689 eram novas para a ciência. Para estudar o acervo de espécimes coletados no Brasil, Martius convidou 65 cientistas especialistas em taxonomia de plantas (“collaboratores”), todos homens europeus.
O volume I da Flora Brasiliensis, publicado em 1906, traz a biografia dos 135 coletores que forneceram espécimes para aqueles 65 autores. No universo extenso de monografistas e coletores há apenas dois nomes femininos: Maria Graham e Therese Prinzessin von Bayern.
Maria, Lady Callcott (1819), de Sir Thomas LawrenceFonte original: Wikimedia Commons
Filha do oficial da Marinha Britânica George Dundas, Maria (1785-1842) mudou-se para a Índia aos 23 anos de idade. Naquele novo país, conheceu o oficial naval escocês Thomas Graham, com quem casou-se em 1809. Com ele empreendeu muitas viagens.
Journal of a Voyage to Brazil, página de rosto (1824), de Maria GrahamFonte original: Blog da BBM
Em 1821, Maria Graham partiu em viagem para a América do Sul acompanhando seu marido, comandante da HMS Doris, uma fragata de 36 canhões enviada para proteger o crescente comércio da Grã-Bretanha com as recém-independentes repúblicas sul-americanas, especialmente o Chile.
Cemitério inglês (1824), de Maria GrahamFonte original: Wikimedia Commons
Maria chegou ao Brasil pela primeira vez nessa viagem, em setembro de 1821. Durante sua estadia, passou por Pernambuco, Bahia e Rio de Janeiro, antes de seguir para o Chile em março de 1822. No entanto, logo após contornarem o Cabo Horn, seu marido teve uma forte febre e faleceu.
Retrato de Dona Leopoldina de Habsburgo E Seus Filhos, de Domenico FailuttiMuseu do Ipiranga
Após alguns meses no Chile, Maria Graham retornou ao Brasil, chegando ao Rio de Janeiro em março de 1823. Lá, foi apresentada ao imperador Dom Pedro e à Imperatriz Leopoldina, que lhe ofereceram o cargo de preceptora de sua filha, Maria da Glória, futura rainha de Portugal.
Sir William Jackson Hooker (1843), de Spiridione GiambardellaFonte original: Wikimedia Commons
Para se preparar para a nova função, Maria Graham viajou à Inglaterra. Lá, conheceu William Jackson Hooker, professor de botânica da Universidade de Glasgow, que mais tarde se tornaria diretor do Jardim Botânico de Kew.
Sessão do Conselho de Ministros (1922), de Georgina de AlbuquerqueMuseu Histórico Nacional
Ao retornar ao Brasil, Maria iniciou seu trabalho como preceptora no palácio. Apesar de manter uma boa relação com a Imperatriz Leopoldina, com quem compartilhava o interesse pelas ciências naturais, foi dispensada do cargo em poucas semanas devido a intrigas na Corte.
Laranjeiras fora do Rio de Janeiro (1821), de Maria GrahamFonte original: Brasiliana Iconografica
Após deixar a casa imperial, Maria Graham permaneceu no Rio de Janeiro até setembro de 1825. Morou em uma chácara no Vale das Laranjeiras, onde se dedicou a explorar as redondezas, incluindo “a floresta virgem” atrás de sua casa. Coletou espécimes e desenhou paisagens e plantas.
Histoire des Plantes de la Guiane Françoise (1775), de Jean Baptiste Christophe Fusée Aublet e desenho de L.FossierFonte original: Abe Books
Em seu diário, conta que tomou emprestado do Ministro da Marinha um livro do botânico Aublet. Ao observar algumas estampas com desenhos de folhas, frutos e flores secas, decidiu desenhar as plantas frescas, "ao mesmo tempo em que obtinha espécimes para o Dr. Hooker, de Glasgow."
Nem sempre era fácil preparar os espécimes: “Em primeiro lugar, muitas das plantas são de natureza que não secam por serem tão carnudas [...]. Além disso, o calor e a umidade do clima especialmente na floração são muito contra o sucesso – o mofo é pior que os insetos [...].”
Mesmo assim coletou muitos espécimes, como "22 variedades de samambaias, todas crescendo entre sua casa nas Laranjeiras e o topo do Corcovado"; "inúmeras plantas aquáticas," na fazenda Santa Cruz; e "um ramo de Bombax inteiramente novo para [ela]", na fazenda Macacú.
Ao coletar espécimes de Lecythidaceae, encanta-se e afirma: "Aublet deu uma descrição de várias espécies dessa família, mas foi infeliz em não visitar a América do Sul numa época do ano ou em circunstâncias que lhe permitissem atribuir a cada uma o próprio fruto, flor ou folha."
Sua prática consistia em coletar, esboçar desenhos e secar os espécimes. Seus esboços e desenhos finalizados, o mais das vezes coloridos, bem como as anotações em diários, cartas e outros meios demonstram a acurácia de suas observações e o conhecimento que detinha sobre plantas.
Portão e mercado de escravos em Pernambuco (1821), de Maria GrahamFonte original: Blog da BBM
Maria Graham deixou inestimável contribuição à botânica com suas coletas, desenhos, comentários e observações sobre plantas e paisagens. Para além da botânica, suas publicações fornecem retratos riquíssimos sobre o povo, os acontecimentos históricos, e os costumes do Brasil.
Pesquisa e redação: Ariane Luna Peixoto (Jardim Botânico do Rio de Janeiro) & Fernando B. Matos (CRIA)
Montagem: Fernando B. Matos (CRIA)
Revisão: Renato De Giovanni (CRIA)
Referências: Flora Brasiliensis (http://florabrasiliensis.cria.org.br/opus);
Journal of a Voyage to Brazil (https://permalinkbnd.bnportugal.gov.pt/records/item/68874-journal-of-a-voyage-to-brazil-and-residence-there);
Maria Graham no Brasil (http://memoria.bn.br/pdf/402630/per402630_1938_00060.pdf); Maria Graham: anotações sobre a flora do Brasil (https://doi.org/10.1590/S0102-33062008000400010)
Informações adicionais: http://florabrasiliensis.cria.org.br/stories
Agradecimentos: Todos os autores das imagens e personagens da história
*Todos os esforços foram feitos para creditar as imagens, áudios e vídeos e contar corretamente os episódios narrados nas exposições. Caso encontre erros e/ou omissões, favor entrar em contato pelo e-mail contato@cria.org.br