CRIA - Centro de Referência em Informação Ambiental
Luiza F. A. de Paula
Flora Brasiliensis: Vol. I, Part I, Fasc. See Urban Plate 25 (1906)CRIA - Centro de Referência em Informação Ambiental
O Rio Negro e os naturalistas
O Rio Negro é o maior afluente da margem esquerda do rio Amazonas. Pela sua grandiosidade, despertou a curiosidade de muitos naturalistas.
O Rio Negro e os naturalistas
Por exemplo, os naturalistas alemães Martius e Spix, em sua expedição pelo Brasil (1817-1820), estiveram em suas águas e registraram sua biodiversidade e costumes locais. Esta litografia da obra Flora Brasiliensis registra uma região do Rio Japurá, próximo ao Rio Negro.
Vol. X, Fasc. 6 Column 141 - 142 (1846-07-01)CRIA - Centro de Referência em Informação Ambiental
Catalogação de espécies
Durante as expedições, os naturalistas coletavam e catalogavam espécies variadas, mas especialmente plantas e animais. Dentre essas espécies registradas na Amazônia, chama a atenção a pimenta do gênero Capsicum.
Capsicum e a Flora Brasiliensis
As espécies do gênero Capsicum não foram ilustradas na Flora Brasiliensis, obra que compilou as espécies registradas durante a viagem de Spix e Martius. Contudo, espécies do gênero Capsicum foram catalogadas e descrições morfológicas em latim foram feitas.
Pimenta Jiquitaia Baniwa: o que é?
É uma mistura de pimentas do gênero Capsicum, da família de plantas Solanaceae. Essa é a mesma família da batata, do tomate e da berinjela. As variedade de pimenta utilizadas na produção da jiquitaia pertencem ao complexo de espécies Capsicum chinense-Capsicum frutescens.
Pimenta Jiquitaia Baniwa: quem faz?
O termo "jiquitaia" faz referência à pimenta processada (mistura de pimenta secas e moída com sal). A pimenta jiquitaia é produzida pelos povos do Rio Negro, incluindo os Baniwa, povo indígena de língua Aruak, com uma população total aproximada de 15 a 18 mil pessoas.
Povo Baniwa do Rio Negro, Amazônia
Os Baniwa vivem em cerca de 200 comunidades e sítios, como parte do complexo cultural do noroeste amazônico, no médio e alto Rio Negro e afluentes, sobretudo no Rio Içana, entre Brasil, Colômbia e Venezuela.
Saber tradicional da mulher Baniwa
Entre os Baniwa, o cultivo das roças é uma prática milenar, de responsabilidade sobretudo das mulheres. Elas se esforçam para manter segurança alimentar e nutricional de várias comunidades. Ainda, criam potentes sistemas de conservação e um grande patrimônio agroalimentar.
Domesticação das pimentas
A grande maioria dos estudos indica a América Central como um dos principais centros de domesticação das pimentas do gênero Capsicum. O noroeste amazônico é referência para a espécie C. chinense, e vai além dos quintais e roças Baniwa.
Sistema Agrícola Tradicional do Rio Negro
O Sistema Agrícola Tradicional do Rio Negro é um conjunto de saberes e práticas interdependentes de manejo dos espaços de cultivo e tecnologias de processamento e armazenamento de alimentos que caracterizam o sistema alimentar rionegrino.
Sistema Agrícola Tradicional do Rio Negro
Desde 2010, o Sistema Agrícola do Rio Negro passou a ser reconhecido como Patrimônio Cultural Brasileiro e garante a segurança alimentar dos povos indígenas da região e a manutenção da floresta em pé.
O poder da pimenta Jiquitaia
Tradicionalmente, a pimenta ocupa um lugar de destaque na vida social e espiritual das comunidades indígenas que vivem na área, e principalmente dos povos Baniwa, pois além da culinária e uso cosmético, é fundamental em cerimônias de iniciação, rituais de cura e proteção.
Produção da pimenta jiquitaia
Todas as famílias rionegrinas, e também Baniwa, produzem a pimenta jiquitaia, que hoje é comercializada para fora do território. Essa produção compõe uma vasta gama de produtos cultivados e manejados, que juntos fazem parte do Sistema Tradicional Agrícola do Rio Negro.
A pimenta jiquitaia, muito aromática, está associada ao consumo de carnes, especialmente de peixes, e também é consumida com formigas.
Vol. I, Part I, Fasc. See Urban Plate 11 (1906)CRIA - Centro de Referência em Informação Ambiental
Prato dos naturalistas em sua viagem pela Amazônia?
Durante sua viagem pelo Brasil, teriam os naturalistas experimentado essas iguarias? Existem chances. Spix era zoólogo, e deve ter se surpreendido com a textura das formigas, por outro lado, o botânico Matius deve ter se deliciado com as variedades da pimenta Baniwa.
Pesquisa e redação: Luiza F. A. de Paula (UFMG/CRIA)
Montagem: Luiza F. A. de Paula
Revisão: João Renato Stehmann (UFMG), Renato De Giovanni (CRIA), Natalia C. Pimenta (ISA)
Referências: Flora Brasiliensis (http://florabrasiliensis.cria.org.br/opus), Viagem pelo Brasil (https://www2.senado.leg.br/bdsf/handle/id/573991), Organização Indígena da Bacia do Içana (Oibi), Instituto Socioambiental (ISA; https://www.socioambiental.org/), Livro Pimenta Jiquitaia Baniwa (https://loja.socioambiental.org/catalogo/pimenta-jiquitaia-baniwa/)
Informações adicionais: http://florabrasiliensis.cria.org.br/stories
Agradecimentos: Todos os autores das fotos, equipe ISA e André Baniwa
*Todos os esforços foram feitos para creditar as imagens, áudios e vídeos e contar corretamente os episódios narrados nas exposições. Caso encontre erros e/ou omissões, favor entrar em contato pelo e-mail contato@cria.org.br