CRIA - Centro de Referência em Informação Ambiental

Rejan R. Guedes-Bruni & Gabriel Paes da Silva Sales

O Maciço da Tijuca

Desvelando o grande provedor de água, café e ciência do Rio de Janeiro

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Fragatas no Rio de Janeiro (1851), de Antoine Alexandre Auguste FrémyFonte original: BNDigital

Martius e o Rio de Janeiro

O botânico von Martius chegou ao Rio de Janeiro em julho de 1817, encontrando uma cidade em plena expansão, quando água e lenha eram imprescindíveis ao estabelecimento dos citadinos.

Desmatamento de uma floresta (1820-1825), de Johann Moritz RugendasFonte original: Wikimedia Commons

O crescimento populacional

A cidade resultava, por três séculos, do aterramento de mangues e brejos, circunscrita por sua morraria, indissociável à paisagem carioca. A mudança da Família Real Portuguesa para o Brasil, em 1808, fez com que a população da urbe aumentasse em 15 mil pessoas em poucos dias.

Carregadores de água (1835), de Johann Moritz RugendasFonte original: Wikimedia Commons

Escassez de recursos

O abrupto crescimento populacional aumentou a demanda por alimentos, abastecimento hídrico, energia (lenha e carvão) e madeiras para construção, exaurindo os recursos naturais. Todos estes insumos provinham de um mesmo lugar: as densas florestas cariocas.

Panorama do Rio de Janeiro tomado do Morro do Castelo (1830/1830), de Émile Taunay, FélixInstituto Moreira Salles

A expansão urbana

No século XIX, o espaço urbano, então limitado aos Morro do Castelo, São Bento, da Conceição e Santo Antônio, se expandiu intensa e desordenadamente, rumo aos sul e norte. A Lei das Terras, de 1850, foi a primeira iniciativa para a organização da propriedade privada no Brasil.

Flora Brasiliensis: Vol. I, Part I, Fasc. See Urban Plate 26 (1906)CRIA - Centro de Referência em Informação Ambiental

A ocupação do Maciço da Tijuca

A expansão urbana foi ocupando os flancos e encostas do maciço da Tijuca, ora via Laranjeiras e Santa Teresa, ora nas áreas brejosas do Estácio e Tijuca, até alcançar a meia encosta no Alto da Boa Vista, onde a cafeicultura dominava a paisagem e se sobrepunha à floresta original

Esboço da "Gavea", Tijuca (1855), de Marguerite TollemacheFonte original: Wikimedia Commons

O café e a cidade

As sementes de café chegaram ao Brasil em torno de 1600, e uma segunda introdução pode ter ocorrido em 1727. Há quem considere que o café ocupasse várias áreas da cidade do Rio de Janeiro no final do século XVIII. O registro mais antigo de sua exportação é de 1808.

Colheita de café (1835), de Johann Moritz RugendasFonte original: Wikimedia Commons

Os impactos da cafeicultura

A cafeicultura foi o principal fator de destruição das florestas do maciço da Tijuca, na primeira metade dos 1800's. Seu cultivo, derrubando e queimando florestas, sem resguardar o solo e suas nascentes, impactou a paisagem, a biodiversidade e o abastecimento de água à cidade.

Vista de uma mata virgem reduzida a carvão (1830), de Félix-Émile TaunayFonte original: Wikimedia Commons

As florestas remanescentes

Ao longo dos 1800, simultaneamente ao processo de destruição, as florestas remanescentes do maciço da Tijuca guardavam testemunhos de vida natural que eram coligidos e representados por inúmeros naturalistas e artistas visando desvelar as belezas naturais e traduzir o Novo Mundo

Flora Brasiliensis: Vol. I, Part I, Fasc. See Urban Plate 19 (1906)CRIA - Centro de Referência em Informação Ambiental

Os naturalistas e o Maciço da Tijuca

Dentre os primeiros naturalistas que coletaram plantas no maciço da Tijuca, destacam-se: Glaziou, Ule, Schwacke, Burchell, Riedel, Ball, Gardner, Lindman e Guillemin. As localidades mais documentadas foram: Corcovado, Tijuca e Gávea.

Cascatinha da Tijuca, Nicolas-Antoine Taunay, Fonte original: Wikimedia commons
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Cascatinha da Tijuca, Johann Moritz Rugendas, 1822, Fonte original: BNDigital
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Cascata da Tijuca, Johann Moritz Rugendas, 1835, Fonte original: Itau Cultural
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O encantamento despertado pela floresta tropical compõe a imagética do maciço, retratada por Thomas Ender, artista da Missão Austríaca, bem como, por:  Félix-Émile Taunay, Rugendas e Maria Graham. A mata circundante à Cascatinha Taunay e suas embaúbas são as mais representadas.

Floresta da Tijuca e Pedra da Gávea ao fundo (1875), de Marc FerrezFonte original: Brasiliana Fotográfica

História e memória

Tanto quanto a floresta, o maciço se configura como um espaço de história e memória. Expressa processos naturais da vegetação, assim como os da agência humana em resposta às demandas da sociedade ao longo do tempo. É um marco da recuperação de áreas desmatadas no país.

Major Manoel Gomes Archer (1936), de Magalhães CorrêaFonte original: CORRÊA, A. M. O Sertão Carioca. Rio de Janeiro: Imprensa Nacional, 1936

O reflorestamento mais antigo do Brasil

É a mais longeva e emblemática ação de reflorestamento realizada no Brasil. Seu primeiro administrador, Manoel Gomes Archer, antigo cafeicultor, ocupou o cargo por dois períodos: 1862-1874 e 1890-1891. Além dele, o Barão d’Escragnolle e Glaziou também exerceram esta função.

Vol. XI, Part I, Fasc. 75 Plate 65 (1878-02-01)CRIA - Centro de Referência em Informação Ambiental

Árvores reflorestadas

Entre 1862-1894 foram plantadas mais de 155 mil árvores de madeiras de lei, sobretudo de espécies nativas, resultando em uma área total reflorestada com cerca de 330 hectares. Dentre as mais utilizadas, destacam-se: urucurana, canjerana, cedro, tapinhoã, além de palmeiras.

Vista do Almirante, Floresta da Tijuca (2018), de Gabriel SalesFonte original: Particular

Testemunhos vivos do projeto de reflorestamento

Ainda hoje é possível encontrar na área testemunhos vivos deste empreendimento, como exemplificam os muitos indivíduos de cedro alinhados, e cujas contagens dos anéis de crescimento comprovaram ter até 150 anos e evidenciam ser as mudas plantadas no projeto de reflorestamento.

Créditos: história

Pesquisa e redação: Rejan R. Guedes-Bruni (Puc-Rio, Biologia) & Gabriel Paes da Silva Sales (Puc-Rio, Geografia)
Montagem: Fernando B. Matos (CRIA)
Revisão: Fernando B. Matos (CRIA); Luiza de Paula (CRIA/UFMG); Renato De Giovanni (CRIA)
Referências: Flora Brasiliensis (http://florabrasiliensis.cria.org.br/opus); 
Fridman, F. et Haesbaert, R. (orgs). Escritos sobre espaço e história. Rio de Janeiro. Editora Garamond. 2014. 
Sales, G. P. S. ; Guedes-Bruni, R. Um Quebra-Cabeça Verde: Montando as Peças do Reflorestamento Empreendido na Floresta da Tijuca. Fronteiras: Journal of Social, Technological and Environmental Science. 2018.
Informações adicionais: http://florabrasiliensis.cria.org.br/stories
Agradecimentos: Aos autores de todas as imagens da história.

*Todos os esforços foram feitos para creditar as imagens, áudios e vídeos e contar corretamente os episódios narrados nas exposições. Caso encontre erros e/ou omissões, favor entrar em contato pelo e-mail contato@cria.org.br

Créditos: todas as mídias
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