CRIA - Centro de Referência em Informação Ambiental
Fernando B. Matos & Herison Medeiros
Colheita de guaraná, povo Sateré-Mawé, de Xavier BartaburuFonte original: Mongabay
Olhos da floresta
Originário da Amazônia, o guaraná (Paullinia cupana) pode subir até 13 metros nas árvores como cipó, mas no cultivo em áreas abertas assume forma de arbusto. Seus frutos, que lembram olhos humanos, despertaram a imaginação indígena e deram origem a lendas transmitidas até hoje.
A lenda do guaranáFonte original: Revista Amazônia
A lenda do guaraná
Entre os indígenas mawés, um jovem menino foi morto por inveja. Para consolar seu povo, Tupã (uma das principais divindades da mitologia tupi-guarani) transformou os olhos do menino em guaraná, presente que fortalece corpo e espírito. O nome vem do tupi wara’ná, 'olhos de gente'.
Satere-Mawe (23 de julho de 2020), de FMIFonte original: Flickr
O povo do guaraná
Entre os Sateré-Mawé, o guaraná é mais que alimento e remédio: é herança sagrada. Domesticado muito antes da chegada dos europeus, suas sementes torradas e moídas deram origem a uma bebida estimulante, usada em rituais, caçadas e no dia a dia para dar energia e saciar a fome.
Guaraná (1785), de José Joaquim FreireFonte original: Biblioteca Nacional
Primeiros registros escritos
Em 1664, o missionário jesuíta Johannes Philippus Bettendorff relatou o guaraná usado como alimento e remédio entre os povos da Amazônia. No fim do século XVIII, o naturalista luso-brasileiro Alexandre Rodrigues Ferreira descreveu seu cultivo, preparo e comercialização.
Alexander von Humboldt & Aimé Bonpland (1870)Fonte original: Wikimedia Commons
Humboldt & Bonpland
No início do século XIX, os naturalistas europeus Alexander von Humboldt e Aimé Bonpland coletaram guaraná no sul da Venezuela. Seus relatos destacaram o uso energético da planta e ajudaram a difundir sua fama pela Europa.
Vol. XIII, Part III, Fasc. 122 Plate 84 (1897-09-01)CRIA - Centro de Referência em Informação Ambiental
Martius e a Flora Brasiliensis
Décadas depois, Carl Friedrich von Martius registrou o guaraná em sua obra Viagem pelo Brasil, descrevendo usos e cultivo. A espécie também ganhou destaque na monumental Flora Brasiliensis, onde arte e ciência se uniram em pranchas que ajudaram a difundir a botânica brasileira.
Paullinia cupana (guarana), de Köhler's Medizinal-Pflanzen (1897), de Franz Eugen Köhler e Karl GüntherFonte original: Plants & People
Ciência e saúde
O guaraná é rico em cafeína (até 3 vezes mais que o café), teobromina e taninos, que conferem propriedades estimulantes e antioxidantes. Ajuda a aumentar energia, foco e desempenho físico e mental. A ciência confirma os efeitos que os indígenas já conheciam há séculos.
Cartaz Guaraná Antarctica (1958)Fonte original: Estadao
Do ritual ao refrigerante
No século XX, o guaraná passou do ritual indígena às garrafas de refrigerante e a inúmeros outros produtos, de energéticos a cosméticos. Tornou-se marca cultural do Brasil e símbolo de energia natural. 'Da selva amazônica para o legítimo Guaraná Champagne', dizia um cartaz de 1958.
Plantação de GuaranáFonte original: Guaranademaues
Cultivo do guaraná
O guaranazeiro cresce bem em clima quente e úmido, com solos férteis e drenados. Florece na estação chuvosa e frutifica na seca, colhido entre setembro e outubro. O Brasil é o maior produtor mundial, com destaque para o Amazonas — em especial Maués, terra do guaraná.
Colheita de Guaraná (27 de novembro de 2010), de Fernando CavalcantiFonte original: Flickr
De olhos no futuro
O guaraná é um símbolo da floresta viva. Guarda memórias indígenas, inspira a ciência e projeta caminhos para o futuro — conservar a biodiversidade, valorizar os povos guardiões da floresta e fortalecer a bioeconomia com inovação sustentável.
Pesquisa e redação: Fernando B. Matos (CRIA) & Herison Medeiros (UFOPA)
Montagem: Fernando B. Matos (CRIA)
Revisão: Vanderlei Canhos (CRIA)
Referências: Flora Brasiliensis (http://florabrasiliensis.cria.org.br); Viagem pelo Brasil (https://www2.senado.leg.br/); Fittipaldi (1986) A Lenda do Guaraná, mito dos Sateré Maué. Editora Melhoramentos; Figueroa (2016). Guaraná, a máquina do tempo dos Sateré-Mawé. Bol. Mus. Para. Emílio Goeldi. Cienc. Hum. 11: 55—85 (https://doi.org/10.1590/).
Informações adicionais: http://florabrasiliensis.cria.org.br/stories
Agradecimentos: Aos autores das imagens que ilustram essa exposição, em especial ao Rodrigo Hühn, editor da Revista Amazônia (revistaamazonia.com.br).
*Todos os esforços foram feitos para creditar as imagens, áudios e vídeos e contar corretamente os episódios narrados nas exposições. Caso encontre erros e/ou omissões, favor entrar em contato pelo e-mail contato@cria.org.br