CRIA - Centro de Referência em Informação Ambiental
Luiza F. A. de Paula & Mariana Augsten
A planta do tabaco
A planta do tabaco, Nicotiana tabacum, é matéria prima para a confecção de fumos, cigarros e charutos. Ela pertence à família de plantas das solanáceas, a mesma da batata, do tomate e da beringela.
Nicotiana tabacum é uma planta nativa da região da cordilheira dos Andes, bem aqui na América do Sul. Quando exploradores europeus chegaram ao continente e tiveram contato com os indígenas que aqui viviam, dentre as muitas novidades observadas, o ato de vê-los fumando em um longo cachimbo foi realmente um acontecimento diferente. “O que é isto?” –'Tobacco', diziam os índios. Prova de que eles não se entendiam muito bem mesmo, é saber que “tobacco”, na verdade, quer dizer: “nós estamos fumando".
Entendendo os nomes científicos das plantas
Um nome científico é composto por dois nomes, o gênero e o epíteto específico. Em Homo sapiens - nossa espécie humana - Homo é o gênero e sapiens é o epíteto específico. No caso da espécie do tabaco, tabacum é o epíteto, mas de onde surgiu o nome do gênero Nicotiana?
Selo francês com Jean Nicot e tabaco (1961), de Jacques CombetFonte original: https://frenchphilately.com/shop/1961-tobacco-jean-nicot/
Tabaco rumo à Europa
Quando chegaram na América do Sul, os exploradores europeus perceberam os efeitos medicinais do fumo, pois ele é analgésico e calmante. Logo no início do século XVI, Jean Nicot (1530-1600), um diplomata francês, levou as sementes para a Europa, o que tornou o fumo disseminado.
Por que o nome "Nicotiana"?
Carolus Linnaeus (1707-1778) foi um botânico, zoólogo e médico sueco. Ele é considerado o pai da nomenclatura binomial: gênero + epíteto. Ao descrever cientificamente a planta do tabaco, decidiu homenagear Jean Nicot, colocando o nome do gênero de Nicotiana.
Serra Geral, Rio grande do Sul, Brasil (2022), de João Renato StehmannCRIA - Centro de Referência em Informação Ambiental
Parentes brasileiros
Além do tabaco, que hoje é amplamente cultivado, existem várias outras espécies de Nicotiana ocorrendo em ambientes naturais. No Brasil, essas plantas ocorrem no sul e no sudeste. Na imagem, vê-se a Serra Geral, no Rio Grande do Sul, uma das moradas das Nicotiana brasileiras.
O grupo das Nicotianas brasileiras é composto por plantas herbáceas, com uma característica interessante: algumas espécies possuem flores brancas, e são polinizadas por mariposas, e outras possuem flores vermelhas ou verdes, e são polinizadas por beija-flores. Curiosamente, Nicotiana mutabilis possui flores rosadas e brancas.
Polinização
A imagem mostra a espécie brasileira Nicotiana langsdorffii, de flores verdes, sendo polinizada por um beija-flor.
Vol. X, Fasc. 6 Column 165 - 166 (1846-07-01)CRIA - Centro de Referência em Informação Ambiental
"Nicotiana" e a Flora Brasiliensis
As Nicotiana brasileiras já tinham sido registradas por naturalistas no passado. Por exemplo, a obra Flora Brasiliensis, resultado da viagem dos viajantes Spix e Martius pelo Brasil (1817-1820), além do tabaco, apresenta descrições em latim de espécies nativas de Nicotiana.
Ambiente das "Nicotiana"
As Nicotiana brasileiras geralmente ocorrem em ambientes abertos, como afloramentos rochosos e campos. Muitas delas são endêmicas, ou seja, possuem distribuição restrita.
Um curioso processo que ocorre com essas plantas é a hibridização, em que duas espécies diferentes de Nicotiana se cruzam, dando origem aos híbridos naturais. As plantas híbridas podem diferir das espécies parentais, por exemplo, em cor, formato e tamanho. Na imagem, é apresentada a espécie parental N. langsdorffii com flores esverdeadas e o seu híbrido de flor rosa. Esse é um processo natural, que faz parte da evolução das espécies.
Hibridização artificial
Contudo, a hibridização é também feita de forma artificial pelo homem, quando objetiva-se reunir, nos híbridos, as características favoráveis que existem separadamente nos parentais, por exemplo resistência às pragas e sabor. Muitos cultivares são híbridos: milho, morango, etc.
Recentemente, a espécie Nicotiana gandarela foi descrita para a ciência. Apenas uma população da espécie foi encontrada, com poucos indivíduos, ocorrendo debaixo de uma lapa de pedra, bem próxima a Belo Horizonte, na Serra do Gandarela, Minas Gerais. A espécie possui flores vermelhas, e são provavelmente polinizadas por beija-flores.
Um campo novo de pesquisa
Como esta espécie chegou até ali? Será que ela possuía uma distribuição mais ampla no passado, e com o aquecimento tornou-se restrita? Ou será que ela evoluiu ali mesmo? Pesquisas científicas ajudam a responder essas perguntas e a ampliar o conhecimento sobre a biodiversidade.
Pesquisa e redação: Mariana Augsten (Universidade Federal de Minas Gerais) & Luiza F. A. de Paula (Universidade Federal de Minas Gerais / CRIA)
Montagem: Luiza F. A. de Paula
Revisão: João Renato Stehmann (Universidade Federal de Minas Gerais), Renato De Giovanni (CRIA)
Referências: Flora Brasiliensis (http://florabrasiliensis.cria.org.br/opus), Viagem pelo Brasil (https://www2.senado.leg.br/bdsf/handle/id/573991)
Informações adicionais: Link para download das pranchas de flores coloridas da Flora Brasiliensis: http://florabrasiliensis.cria.org.br/stories
Agradecimentos: Todos os autores das fotos e personagens da história.
*Todos os esforços foram feitos para creditar as imagens, áudios e vídeos e contar corretamente os episódios narrados nas exposições. Caso encontre erros e/ou omissões, favor entrar em contato pelo e-mail contato@cria.org.br