CRIA - Centro de Referência em Informação Ambiental
José Rubens Pirani & Fernando B. Matos
Flora Brasiliensis: Vol. I, Part I, Fasc. See Urban Plate 4 (1906)CRIA - Centro de Referência em Informação Ambiental
Flora brasiliensis
A Flora Brasiliensis é um marco da botânica mundial. Embora iniciada em 1840, seu volume 1 foi publicado por último, em 1906, com 59 gravuras de paisagens brasileiras. Nesta história, embarcaremos em um “passeio botânico” por uma delas, destacando suas plantas.
O bioma Cerrado
No Domínio Fitogeográfico (ou bioma) do Cerrado predominam paisagens campestres, savânicas e rupestres, ocupando imensa extensão dos planaltos do interior do Brasil, do centro-oeste de Minas Gerais e Bahia até o Mato Grosso, sob clima tropical com estação seca pronunciada.
Martius em Minas Gerais, 1818:
"Ficamos especialmente maravilhados ao subir o íngreme Morro do Gravier, continuação da Serra de Ouro Branco. Aqui me recordo de que nenhuma planta nos provocou tanta alegria e entusiasmo quanto as 'canelas-de-ema'."
“Que admirável é deter-se diante das Vellozia aloifolia, com seus caules bifurcados e superficialmente carbonizados pela queima dos campos. Seus ramos terminam em feixes de longas folhas lineares de onde emergem grandes flores azuis.”
As grandes árvores são raras nesta região. No canto inferior esquerdo, vemos a Zeyheria montana, uma bignoniácea conhecida como “mandioquinha-do-campo” ou “bolsa-de-pastor”. Apresenta troncos retorcidos com casca grossa, folhas compostas com 5 folíolos, e flores tubulares amarelas.
Perto dela, vemos um arbusto candelabriforme conhecido como “paina” (Lychnophora villosissima), com ramos densamente cobertos por indumento lanoso e folhas agrupadas nos ápices. Logo à direita vemos o “pau-santo” (Kielmeyera coriacea), com suas cápsulas trigonais e pendentes.
Mais para o centro, vemos o "embiruçu" ou "mamoarana" (Pseudobombax tomentosum), uma árvore de 4 a 10 metros de altura, com copa arredondada e folhas compostas palmadas com sete folíolos. Seus ramos são retorcidos e cobertos por uma casca grossa e resistente ao fogo.
Se olharmos para o fundo, à esquerda está a graciosa “carne-de-vaca” (Roupala montana), uma árvore que, apesar de sua aparência modesta, é uma das maiores da região. Perto dela, a “açoita-cavalo” (Luehea paniculata) encanta com sua magnífica copa.
Em primeiro plano, vemos altas e soberbas touceiras de gramíneas, como Paspalum erianthum e Paspalum polyphyllum. Entre elas, ervas e arbustos com flores magníficas, como Eryngium, Calolisianthus amplissimus e, nas gretas dos rochedos, Sinningia tuberosa e Sinningia rupicola.
Destacam-se também grandes touceiras de Lavoisiera imbricata, com seus ramos pequenos e densamente cobertos por folhas curvinérveas. Mais longe, vemos duas outras melastomatáceas: Pterolepis repanda e Rhynchanthera. Todas amplamente floridas, colorem o ambiente e disputam em beleza.
Talvez uma das plantas mais características dessa paisagem seja a “sempre-viva” (Paepalanthus amoenus), uma erva perene e muito ornamental da família das eriocauláceas. Apresenta folhas espiraladas, inflorescências umbeladas, pedúnculos longos e flores brancas.
No canto direito, está a Remijia ferruginea, uma rubiácea arbustiva conhecida como “quina-do-campo”, “quina-mineira” ou “quina-da-serra”. Sua casca é amarga, adstringente e indicada como febrífuga. Apresenta atividade antimalárica moderada, porém é desprovida de quinina.
"Vimos poucos animais, mas às vezes nos deparamos com uma ave admirável que os indígenas chamam de siriema (Dolichopus cristatus). Elas percorrem a região em pequenos bandos e, perseguindo serpentes, atacam, com grande benefício para os homens, esses terríveis inimigos."
As variadas paisagens encontradas ao longo do vasto Cerrado brasileiro detêm alta diversidade de plantas, com formas de vida adaptadas ao clima tropical estacional, muitas delas endêmicas desses ambientes, sobretudo nas serras com afloramentos rochosos e campos rupestres.
Pesquisa e redação: José Rubens Pirani (USP) & Fernando B. Matos (CRIA)
Montagem: Fernando B. Matos (CRIA)
Revisão: Renato De Giovanni (CRIA)
Referências: Flora Brasiliensis (http://florabrasiliensis.cria.org.br/opus); Viagem pelo Brasil (https://www2.senado.leg.br/bdsf/handle/id/573991)
Informações adicionais: http://florabrasiliensis.cria.org.br/stories
Agradecimentos: Esta história foi baseada no texto explicativo que acompanha a litografia n. 4 da Flora Brasiliensis (Martius 1906: 6-7).
*Todos os esforços foram feitos para creditar as imagens, áudios e vídeos e contar corretamente os episódios narrados nas exposições. Caso encontre erros e/ou omissões, favor entrar em contato pelo e-mail contato@cria.org.br