Os xaxins da Flora Brasiliensis

As samambaias arbóreas estão entre as plantas que mais se destacam na Floresta Atlântica brasileira. Suas formas já encantaram alguns dos maiores naturalistas do mundo.

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Charles Darwin (1840), de George RichmondFonte original: From Origins, Richard Leakey and Roger Lewin

Charles Darwin no Brasil

Durante sua breve passagem pelo Rio de Janeiro, em 1832, o então jovem Charles Darwin admirou-se com os xaxins. Em seu diário de viagem, ele escreveu: “Os cursos d’água eram ornamentados pela mais elegante de todas as formas vegetais, a samambaia arbórea."

Carl Friedrich Philipp von Martius (1794-1868) (12 de dezembro de 2006 (data de carregamento original)), de J. Kuhn segundo MerzFonte original: Hans Wahl, Anton Kippenberg: Goethe and his world, Insel-Verlag, Leipzig 1932 p.204

Martius e os xaxins

Não muito antes disso, em sua épica viagem pelo Brasil (1817-1820), o grande botânico Carl Friedrich Philipp von Martius também se encantou com essas plantas.

Flora Brasiliensis: Vol. I, Part I, Fasc. See Urban Plate 14 (1906)CRIA - Centro de Referência em Informação Ambiental

“Nem sei qual espécie me surpreendeu mais quando vi pela primeira vez: a palmeira [...] ou a samambaia”, disse ele em uma de suas obras dedicadas às samambaias do Brasil (Martius, 1834, p. 79).

Caules de Cyathea (Tab.I) (1822)Fonte original: von Martius, C.F.P.: De plantis nonnullis antediluvianis ope specierum inter tropicos viventium illustrandis. Denkschr. Königl.-Baier. Bot. Ges. Regensburg 2: 121-147. 1822.

Espécies novas para a ciência

As primeiras espécies novas de Cyatheaceae (família dos xaxins) descritas por Martius foram publicadas em 1822, logo após o seu retorno para Munique.

Icones Plantarum Cryptogamicarum (pagina titulo), de Carl Friedrich Philipp von MartiusFonte original: von Martius, C.F.P.: Icones plantarum cryptogamicarum, Impensis auctoris, Monachii, 1828-1834.

Icones Plantarum Cryptogamicarum (1828-1834)

Outras espécies foram descritas e ilustradas posteriormente, em uma obra inteiramente dedicada às "plantas" sem sementes (algas, liquens, musgos e samambaias) coletadas pelo próprio Martius no Brasil.

Tab.XXXII, de Carl Friedrich Philipp von MartiusFonte original: von Martius, C.F.P.: Icones plantarum cryptogamicarum, Impensis auctoris, Monachii, 1828-1834.

Uma parceria científica notável

Neste estudo detalhado, Martius contou com o conhecimento especializado do botânico alemão Hugo von Mohl (1805-1872), um dos pioneiros na anatomia vegetal.

Chnoophora excelsa (Tab.XXVII), de Heinzmann litographFonte original: Icones Plantarum Cryptogamicarum

Descrições detalhadas e ecologia dos xaxins

A parte de Martius incluiu descrições para quase 20 espécies de xaxim, além de comentários taxonômicos e observações sobre a distribuição geográfica e ecologia dessas espécies.

Alsophila paleolata (Tab.XLIII), de Carl Friedrich Philipp von MartiusFonte original: Icones Plantarum Cryptogamicarum

Ilustrações

Mas o que mais impressiona são as belíssimas gravuras coloridas e detalhadas que acompanham as descrições, revelando as características únicas de cada espécie com grande precisão científica e alta sensibilidade artística.

Tab.XXIX, de Carl Friedrich Philipp von MartiusFonte original: Icones Plantarum Cryptogamicarum

Xaxins em detalhes

Além de mostrar os xaxins em seus habitats naturais, a obra ainda contém pranchas com detalhes dos caules, folhas e soros.

John Gilbert Baker (circa 1900), de Joseph Wilson ForsterFonte original: Collection of the Herbarium, Library, Art & Archives, Royal Botanic Gardens, Kew

Flora Brasiliensis

Infelizmente, Martius não teve tempo de produzir um tratamento taxonômico para os xaxins na Flora Brasiliensis. Esse trabalho ficou ao encargo do botânico britânico John Gilbert Baker (1834-1920) e foi publicado apenas em 1870, dois anos após o falecimento de Martius.

Dicksonia sellowiana, de Polypodiaceae e EudicksoniaCRIA - Centro de Referência em Informação Ambiental

Baker e as samambaias

Ao todo, Baker reconheceu 38 espécies de samambaias arbóreas para o Brasil.

Alsophila elegans, de Cyatheaceae e ChnoophoraCRIA - Centro de Referência em Informação Ambiental

Flora Brasiliensis

As ilustrações são todas em preto e branco e mostram características diagnósticas de algumas espécies.

Flora do Brasil 2020 (2021)Fonte original: BFG (The Brazil Flora Group) 2021. Flora do Brasil 2020. 1-28 pp. Jardim Botânico do Rio de Janeiro, Rio de Janeiro.

Uma versão moderna para a Flora Brasiliensis

Mais recentemente, 979 pesquisadores de diversos países reuniram-se para produzir a "Flora do Brasil 2020". Neste trabalho, foram reconhecidas 60 espécies de xaxim para o país.

Cyathea delgadoi, Fernando B. Matos, 8 de fevereiro, 2006, Da coleção de: CRIA - Centro de Referência em Informação Ambiental
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Dicksonia sellowiana, Fernando B. Matos, 13 de janeiro, 2013, Da coleção de: CRIA - Centro de Referência em Informação Ambiental
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Essas 60 espécies podem ser divididas em 2 grupos: os xaxins-de-espinho (pertencentes à família Cyatheaceae) e o xaxim-bugio (Dicksonia sellowiana Hook., Dicksoniaceae). O termo samambaiuçu pode ser usado para ambos, pois significa “samambaia grande” em tupi-guarani.

Tree fernFonte original: Moran, R.C.: História Natural das Samambaias, TECC Editora, Florianópolis, 2012, p. 129, fig. 80.

Samambaiaçu: samambaias grandes

Algumas dessas espécies chegam a 20 m de altura, e para isso elas dispõe de duas estratégias: 1) seus caules são endurecidos internamente com um tecido chamado esclerênquima; 2) um espesso manto de raízes é formado ao redor dos caules, aumentando o diâmetro dos mesmos.

Vasos e esculturas de xaxim, de Robbin C. MoranCRIA - Centro de Referência em Informação Ambiental

Samambaias ameaçadas

Esses mantos já foram muito usados como substrato para o cultivo de orquídeas, bem como para a confecção artesanal de vasos e esculturas. Atualmente, a comercialização desses produtos é ilegal, pois todas as espécies de xaxim são protegidas por um acordo internacional (CITES).

Créditos: história

Pesquisa e redação: Fernando B. Matos (CRIA)
Montagem: Fernando B. Matos (CRIA)
Revisão: Lana Sylvestre (UFRJ), Luiza F. A. de Paula (UFMG), Renato De Giovanni (CRIA)
Referências: Flora Brasiliensis (http://florabrasiliensis.cria.org.br/opus); Viagem pelo Brasil (https://www2.senado.leg.br/bdsf/handle/id/573991); Icones Plantarum Cryptogamicarum (https://www.biodiversitylibrary.org/bibliography/16100)
Informações adicionais: http://florabrasiliensis.cria.org.br/stories
Agradecimentos: Aos autores das imagens.

*Todos os esforços foram feitos para creditar as imagens, áudios e vídeos e contar corretamente os episódios narrados nas exposições. Caso encontre erros e/ou omissões, favor entrar em contato pelo e-mail contato@cria.org.br

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