A flora nos azulejos do Maranhão

Dos campos da Península Ibérica para as fachadas da cidade de porcelana

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Mouriscos do Reino de Granada, passeando pelo campo com mulher e criança. Desenho de Christoph Weiditz (1529) (1529), de Christoph WeiditzFonte original: Wikimedia Commons

Antes, os Mouros

A história dos azulejos maranhenses começa na Península Ibérica com os mouros, povo mulçumano de origem africana que ocupou a região até aproximadamente 1490. Muito da maneira moura chegou às colônias espanholas e portuguesas, diluída na culinária, linguagem e arquitetura.

Palácio da Pena, Sintra, Portugal (2017), de Lucas C. MarinhoFonte original: L.C. Marinho

Nas artes, a representação de formas vegetais ganhou força expressando beleza e delicadeza nas obras ibéricas. A utilização de elementos botânicos tem sentido diante da recusa de alguns muçulmanos em ter imagens de homens e animais em suas casas.

Rua Portuga, São Luís, Maranhão, Brasil (2012), de Lucas C. MarinhoFonte original: L.C. Marinho

A chegada dos azulejos ao Brasil

O ato de revestir as casas com cerâmica trouxe para as construções brasileiras maior durabilidade e climatização. O calor tropical era suavizado ao mesmo tempo que protegia as construções das chuvas torrenciais comuns em cidades com influência amazônica como São Luís.

Prédio em Lisboa, Portugal. (2017), de Lucas C. MarinhoFonte original: L.C. Marinho

A maior parte dos azulejos maranhenses tem origem portuguesa, no entanto, diante da abertura dos portos brasileiros ao livre comércio, o Brasil pode importar azulejos de outros países, como Inglaterra, Alemanha, Holanda, França e Bélgica.

Azulejo feito com decalcomania, Lucas C. Marinho, 2022, Fonte original: L.C. Marinho
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Azulejo feito com estampilha, Lucas C. Marinho, 2022, Fonte original: L.C. Marinho
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O traço fiel: As ilustrações de plantas em azulejos feitas por decalcomania (algo como “carimbos” em cobre) tendem a ter imagens mais fiéis às espécies, ao passo que outras técnicas apresentam em sua maioria elementos fitomórficos estilizados, onde é possível perceber a presença de flores e folhas, mas sem a intenção do artista de representar algum táxon específico.

Azulejo de Manaus, Brasil (2022), de Lucas C. MarinhoFonte original: L.C. Marinho

Cidade de Porcelana

Embora presentes em outros centros históricos coloniais do Brasil, como Salvador, Recife e Manaus, os azulejos tornaram-se uma marca cultural maranhense, especialmente pela quantidade e variedade de peças, o que rendeu à capital do Maranhão o título de Cidade de Porcelana.

Azulejos portugueses em São Luís (2022), de Lucas C. MarinhoFonte original: L.C. Marinho

A flora dos azulejos

Dentre os azulejos do Maranhão foram identificadas 94 peças (~21% do total) que possuíam algum tipo de elemento fitomórfico em sua composição, 56 tinham imagens associadas a um grupo taxonômico botânico e sete peças foram completamente identificadas à nível de espécie.

Roseira, tulipa e videira na natureza e na arte dos azulejos (2021), de Lucas C. MarinhoFonte original: Menezes et al. (2021)

Cada uma das sete peças completamente identificadas à nível específico apresenta, pelo menos, uma das três espécies a seguir: Rosa canina L. (rosa), Vitis vinifera L. (videira), ou Tulipa sylvestris L. (tulipa). Embora ocorram no Brasil, são espécies cultivadas do Velho Mundo.

Palácio da Pena, Sintra, Portugal, Lucas C. Marinho, 2017, Fonte original: L.C. Marinho
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Palácio da Pena, Sintra, Portugal, Lucas C. Marinho, 2017, Fonte original: L.C. Marinho
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Asteraceae em destaque: Quando várias espécies de plantas são apresentadas em um único azulejo, a família dos girassóis, Asteraceae, é sempre uma delas. Dentre os 94 azulejos com elementos fitomórficos, 25 destes representam espécimes de Asteraceae. Em meados do século XIX, essa família era comum em azulejos em relevo e tornou-se o motivo decorativo dominante.

Asteraceae na natureza e na arte dos azulejos (2021), de Lucas C. MarinhoFonte original: Menezes et al. (2021)

O arranjo de flores liguladas em torno de um disco arredondado com pequenas flores tubulares é típico das Asteraceae. Em algumas impressões, as flores assemelhavam-se a uma estrutura em forma de pincel, vistas de lado. Nesses casos, geralmente havia composições com folhas.

Azulejos feito com estampilha, Lucas C. Marinho, 2022, Fonte original: L.C. Marinho
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Fabaceae lianescente in vivo e representação em azulejo, Lucas C. Marinho, 2021, Fonte original: Menezes et al. (2021)
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(Por que essas espécies?) Apesar de comumente cultivadas no Brasil, estas espécies não são nativas e, possivelmente, não havia sentimento de pertencimento, uma vez que as ilustrações retratam características diferentes do que se vê localmente.

Brassicaceae, Gerânio e Linaceae na natureza e na arte dos azulejos (2021), de Lucas C. MarinhoFonte original: Menezes et al. (2021)

A clara tendência era ilustrar plantas observadas e manuseadas diariamente e com apelo ornamental, como Asteraceae, Rosaceae e Liliaceae, e com valor econômico, como Brassicaceae, Fabaceae e Vitaceae.

Cisne (Cygnus olor) e azulejos com desenhos de cisnes (2016), de Lucas C. MarinhoFonte original: L.C. Marinho

Não à impercepção botânica!

A presença de aproximadamente 20% dos azulejos com elementos fitomórficos contrasta com a quase ausência de animais representados nas peças. Apenas dois azulejos, de origem desconhecida, contêm espécies de cisnes (Cygnus sp.).

Solar no centro histórico de São Luís, Maranhão, Lucas C. Marinho, 2109, Fonte original: L.C. Marinho
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Rua Portuga, São Luís, Maranhão, Brasil, Lucas C. Marinho, 2012, Fonte original: L.C. Marinho
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Embora as ilustrações fitomórficas não reflitam a flora local, os azulejos se tornaram o símbolo mais característico do Maranhão.

Créditos: história

Pesquisa e redação: Lucas C. Marinho (UFMA)
Montagem: Fernando B. Matos (CRIA)
Revisão: Fernando B. Matos (CRIA)
Referências: Marinho (2025, Anais do 2º Colóquio de Botânica Cultural da UEFS. ISBN 978-65-83341-02-0); Menezes et al (2021, https://doi.org/10.14237/ebl.12.1.2021.1764); Silva et al. (2021, https://doi.org/10.5151/cidicongic2021-010-353443-CIDI-Comunicacao.pdf).
Informações adicionais: http://florabrasiliensis.cria.org.br/stories
Agradecimentos: Agradeço aos colegas do Lab. Design UFMA, ao Grupo de Pesquisa em Sistemática e Taxonomia de Angiospermas (https://gptaxa.wixsite.com/taxa) e a todos os estudantes que têm contribuído com esse projeto.

*Todos os esforços foram feitos para creditar as imagens, áudios e vídeos e contar corretamente os episódios narrados nas exposições. Caso encontre erros e/ou omissões, favor entrar em contato pelo e-mail contato@cria.org.br

Créditos: todas as mídias
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