CRIA - Centro de Referência em Informação Ambiental
Fernando B. Matos
A ponte Aisch em Höchstadt (1845), de Carl August LebschéeFonte original: MeisterDrucke
Biografia
Johann Baptist Ritter von Spix (1781-1826) nasceu o sétimo de 11 filhos na cidade de Höchstadt an der Aisch, na Baviera, Alemanha. Seu pai, que faleceu cedo, era barbeiro, dentista, farmacêutico, e cirurgião-médico. Sua casa de infância hoje abriga o Museu Spix.
Aos 11 anos, mudou-se para Bamberg, onde estudou na escola e no seminário episcopal. Formou-se Doutor em Filosofia pela Universidade de Bamberg aos 19 anos e, aos 26, concluiu Medicina na Universidade de Würzburg, onde foi influenciado por Schelling a estudar a natureza. Com uma bolsa do governo da Baviera, Spix foi à França para se especializar em zoologia no Museu Nacional de História Natural, onde teve aulas com Georges Cuvier, Lamarck e Geoffroy Saint-Hilaire.
Durante sua estadia em Paris, Spix realizou diversas excursões pela Europa. A primeira foi para Normandia, litoral norte da França, e resultou na publicação de seu primeiro artigo científico: "Memoire pour servir à l’histoire de l’astérie rouge, Asterias rubens" (1809). Em 1811, publicou uma obra de mais de 700 páginas: "História e avaliação de todos os sistemas em Zoologia segundo a sua sequência evolutiva de Aristóteles até os dias atuais", que lhe rendeu reconhecimento científico mundial.
Ao retornar para Munique, assumiu o cargo de curador de zoologia na Academia de Ciências da Baviera. Em 1815, publicou Cephalogenesis, onde descreve a morfologia dos crânios de diversos animais e a interpreta de um ponto de vista filosófico natural. Detalhou não apenas os crânios dos vertebrados, mas também as cápsulas da cabeça dos artrópodes (insetos, aranhas, caranguejos) e polvos. Trata-se do primeiro trabalho de ciências naturais ilustrado com a técnica da litografia; uma obra-prima.
Aos 36 anos, o já experiente zoólogo Spix recebeu a oportunidade única de embarcar em uma jornada ao Brasil, acompanhado pelo jovem botânico de 23 anos Carl Friedrich Philipp von Martius. Juntos protagonizaram uma das expedições científicas mais importantes e bem-sucedidas do século XIX. A chance de cruzar o Atlântico surgiu em virtude do casamento de Maria Leopoldina (filha do imperador austríaco) com Dom Pedro I (príncipe herdeiro de Portugal), que na época vivia no Brasil.
Tabula Geographica (1820), de Carl Friedrich Philipp von MartiusFonte original: Wikimedia commons
Viagem pelo Brasil (1817-1820)
Durante três anos, a expedição percorreu mais de 10.000 km, passando por sete estados brasileiros, desde o Rio de Janeiro até o Amazonas. Na última parte da viagem, Spix se separou de Martius e percorreu o rio Solimões, de Tefé a Tabatinga, e o rio Negro, de Manaus a Barcelos.
Tipo de Mycetes discolor (2016), de Barbara RuppelFonte original: Zenodo
Rendimento científico
Segundo Martius, a expedição resultou na coleta de uma impressionante quantidade de espécies: 85 de mamíferos, 350 de aves, 130 de anfíbios, 116 de peixes, 2700 de insetos, 80 de aracnídeos, além de inúmeros crustáceos, moluscos e 6500 espécies de plantas.
Espécimes coletados no Brasil por Johann Baptist von Spix (5 de junho, 2018), de Klaus SchönitzerFonte original: Wikimedia Commons
Onde estão os espécimes?
Os espécimes coletados por Spix permanecem preservados na renomada Coleção de Zoologia do Estado da Baviera (Zoologische Staatssammlung München, em alemão). Esses espécimes forneceram uma base rica e diversificada para uma ampla gama de estudos científicos, como veremos a seguir.
O relato intitulado “Viagem pelo Brasil” foi publicado em 3 volumes (1823, 1828, 1831). Mais do que uma simples narrativa de viagem, essa obra apresenta detalhes sobre a natureza local e retrata os humanos que viviam no Brasil daquela época, com suas complexas atividades sociais, econômicas, culturais e políticas. Trata-se de uma das maiores contribuições ao conhecimento do Brasil do início do séc. XIX. Spix não participou da redação de todos os volumes, pois faleceu prematuramente em 1826.
O primeiro volume no qual Spix descreveu cientificamente os animais coletados no Brasil foi impresso em 1823, apenas dois anos após o seu retorno da expedição. Nesse trabalho de formato particularmente grande (fólio), Spix descreveu 34 espécies de macacos e 15 de morcegos. A obra é ilustrada com 38 gravuras, quase todas coloridas. Duas dessas gravuras mostram os crânios de quinze macacos e um humano. Aqui Spix se conecta com sua pesquisa anterior sobre o crânio, a Cephalogenesis, de 1815.
As aves foram tratadas em dois volumes, impressos em 1824 e 1825. Nessas duas obras, Spix descreveu 220 espécies e subespécies de aves, incluindo algumas das mais interessantes e famosas do Brasil. Algumas dessas espécies, no entanto, já haviam sido descritas por outros pesquisadores a partir das coletas feitas pelo príncipe Wied-Neuwied, de modo que apenas cerca da metade dos nomes dados por Spix ainda são válidos.
Spix também dedicou-se ao estudo de répteis e anfíbios, resultando em um total de três volumes. Em 1824, foi publicado o volume sobre tartarugas e sapos, assim como o volume dedicado às serpentes. No ano seguinte, em 1825, foi lançado o terceiro volume, sobre crocodilianos e lagartos. No primeiro livro, Spix e seu assistente Johann Georg Wagler descreveram 19 espécies de tartarugas e 55 espécies de anfíbios, incluindo sapos, pererecas e rãs.
No livro sobre serpentes, Wagler foi o único autor, embora tenha usado as notas de Spix para ajudar. Spix, por sua vez, atuou como editor. O livro incluiu 43 espécies, das quais 36 eram completamente novas para a ciência! Wagler destacou-se como um importante herpetólogo, sendo reconhecido por ter estabelecido vários gêneros que continuam sendo aceitos pela comunidade científica até hoje.
O último trabalho dessa série foi publicado no ano seguinte (1825). Spix descreveu quatro espécies de jacarés, incluindo o jacaré-açu (Melanosuchus niger), o maior crocodiliano das Américas, e 36 novas espécies de lagartos.
Spix também coletou moluscos no Brasil. Após retornar para a Europa, completou as gravuras e preparou descrições para uma monografia sobre os espécimes que havia coletado. Com sua morte prematura, em 1826, Johann Andreas Wagner (1797-1861), pesquisador associado e posteriormente curador em Munique, foi convocado para completar o texto. A obra foi publicada em 1827 e teve Franz von Paula Schrank e von Martius como editores. No total, 64 caramujos e 20 bivalves foram ilustrados.
Spix coletou cerca de 100 espécies de peixes no Brasil. Ele também supervisionou as ilustrações e fez notas científicas para a maioria das espécies. Após sua morte, o jovem zoólogo suíço Louis Agassiz continuou o trabalho sob a orientação de Martius, obtendo seu doutorado com sua mentoria. Além de 84 litografias coloridas representando os peixes, a obra também inclui 6 ilustrações anatômicas e 7 litografias que mostram diversas técnicas indígenas de pescaria.
Após o falecimento de Spix, o entomólogo alemão Josef Anton Maximilian Perty (1804-1884) descreveu um total de 622 espécies de insetos em quatro fascículos (volumes parciais), utilizando as coletas de Spix, entre 1830 e 1834. Certamente, muitos milhares de insetos brasileiros foram descritos cientificamente desde então, e muitos outros já eram conhecidos anteriormente. Mesmo assim, a contribuição de Spix e Perty para a entomologia foi altamente significativa.
Das mais de 3 mil espécies de animais catalogadas pela primeira vez com base nas coletas de Spix, muitas foram batizadas em sua homenagem. O exemplo mais conhecido é a ararinha-azul, Cyanopsitta spixii, espécie endêmica da caatinga e ameaçada de extinção. Outros exemplos incluem o preá-da-catinga (Galea spixii), o cágado-negro (Acanthochelys spixii), a cobra-coral da Amazônia (Micrurus spixii), e a aranha-de-parede (Selenops spixii). Há também um gênero de caramujos terrestres denominado Spixia.
Fonte de inspiração para a ciência
A vida de Johann Baptist von Spix é um legado de descobertas e paixão pela natureza. Sua corajosa expedição ao Brasil e suas obras pioneiras continuam a inspirar a ciência e a conservação. Que sua dedicação nos lembre da importância de explorar e proteger o nosso mundo natural.
Pesquisa, redação e montagem: Fernando B. Matos (CRIA) & Vanderlei Canhos (CRIA)
Referências: Schönitzer, Klaus (2011)
Viagem pelo Brasil (https://www2.senado.leg.br/bdsf/handle/id/573991)
Simiarum et vespertilionum (https://www.biodiversitylibrary.org/page/56784211)
Testudinum et Ranarum (https://www.biodiversitylibrary.org/page/2948469)
Avium species novae (https://www.biodiversitylibrary.org/page/41277950)
Serpentum brasiliensium (https://www.biodiversitylibrary.org/page/3425499)
Testacea fluviatilia (https://www.biodiversitylibrary.org/page/39465053)
Selecta genera et species piscium (https://www.biodiversitylibrary.org/page/9895708)
Delectus animalium articulatorum (https://www.biodiversitylibrary.org/page/57932815)
Informações adicionais: http://florabrasiliensis.cria.org.br/stories
*Todos os esforços foram feitos para creditar as imagens, áudios e vídeos e contar corretamente os episódios narrados nas exposições. Caso encontre erros e/ou omissões, favor entrar em contato pelo e-mail contato@cria.org.br