CRIA - Centro de Referência em Informação Ambiental
Fernando B. Matos & Vanderlei Canhos
Erlangen (1790)Fonte original: Wikimedia commons
Carl Friedrich Philipp von Martius (1794-1868) nasceu na cidade bávara de Erlangen, e lá passou a sua juventude. Seu pai, farmacêutico, era interessado em botânica e amigo de Johann Christian Daniel von Schreber, um ex-aluno de Linnaeus, que influenciou Martius na sua mocidade.
Aos 16 anos, Martius começou a estudar medicina na Universidade de Erlangen. Em 1812, o herbário de Schreber foi comprado pelo Rei da Baviera, e os cientistas enviados a Erlangen para negociar essa compra foram Franz von Schrank e Johann Baptist von Spix. Conheceram Martius e logo o recomendaram para a Academia de Ciências da Baviera. Foi assim que, em 1814, depois de terminar a sua licenciatura em medicina com uma tese botânica, Martius mudou-se para Munique, onde passaria o resto de sua vida.
Fragatas Austria e Augusta partindo de Trieste para o Brasil, 1817 (1817), de Giovanni PessiFonte original: The World of Habsburgs
O casamento da arquiduquesa austríaca Maria Leopoldina com Dom Pedro I, em 1817, proporcionou ao ambicioso rei da Baviera uma oportunidade única de enviar uma expedição científica ao Brasil. Ele então ordenou que Martius e Spix "acompanhassem a noiva" até o Novo Mundo.
Tabula Geographica (1820), de Carl Friedrich Philipp von MartiusFonte original: Wikimedia commons
Em uma das expedições científicas mais bem-sucedidas de todos os tempos, Martius e Spix passaram três anos (1817-1820) viajando pelo Brasil. Ao todo, percorreram mais de 10.000 km, partindo do Rio de Janeiro e alcançando a fronteira do Brasil com a Colômbia, na região amazônica.
Após retornarem a Munique em 1821, Spix e Martius começaram a sistematizar os resultados de sua viagem pelo Brasil. O relato da expedição, Reise in Brasilien (1823-1831), foi publicado em 3 volumes e um atlas. Spix ainda publicou outros 9 volumes sobre a fauna brasileira e um ensaio histórico, mas não pôde continuar seu trabalho, pois faleceu apenas seis anos após o retorno. Martius, por sua vez, prosseguiu com suas pesquisas até 1868, publicando cerca de 150 obras em seus 74 anos de vida.
Desde o início, Martius foi muito ambicioso na exploração de seus dados. Tomou cuidado para incorporar os seus dados aos dos outros naturalistas da época, e sistematizou os resultados em publicações variadas. Uma de suas principais obras intitula-se "Nova genera et species plantarum, quas in itinere per Brasiliam", publicada ao longo de oito anos (1824-1832), em 3 volumes. Contém descrições detalhadas de 400 espécies novas e 70 gêneros novos, com ilustrações coloridas (cromolitografias).
Também para as criptógamas, Martius conseguiu produzir uma obra muito bonita e importante, a "Icones plantarum cryptogamicarum" (1827-1834), com descrições e ilustrações minuciosas para as algas, liquens, briófitas, licófitas e samambaias coletadas no Brasil. Para este trabalho, Hugo von Mohl forneceu um excelente tratado sobre a estrutura do caule das samambaias e para o primeiro volume do Nova genera, Martius teve seu colega Zuccarini como colaborador; tudo mais é obra exclusivamente dele.
Martius ficou conhecido como "o Pai das Palmeiras." Ele era apaixonado por essas plantas, e pode-se dizer que as admirou como um turista, as desenhou como um pintor de paisagens e as estudou como um botânico. Sua obra "Historia naturalis palmarum" (1823-1850), publicada em 3 volumes ao longo de quase três décadas, é ainda hoje basilar para o estudo das palmeiras do mundo todo. Contém 180 pranchas de rara beleza e riqueza de detalhes, com desenhos anatômicos e de aspectos do habitat das plantas.
A expedição foi realizada sem nenhum acidente sério ou perda dos materiais coletados - algo incomum para expedições científicas naquela época - e rendeu uma coleção de aproximadamente 20.000 exsicatas, contendo ao redor de 6.500 espécies de plantas, além de grande número de espécimes zoológicos e uma extensa coleção de artefatos das diferentes tribos indígenas encontradas durante a viagem. As coleções botânicas encontram-se preservadas principalmente no herbário de Munique (M).
Após uma tentativa inicial, logo abandonada, de publicar uma Flora do Brasil em colaboração com seu amigo Nees von Esenbeck, Martius foi encorajado pelo príncipe Metternich a iniciar a publicação em escala muito maior e bem mais ambiciosa de uma Flora do Brasil. Esse foi o projeto que se tornou a Flora brasiliensis que nós conhecemos hoje. O trabalho foi iniciado em 1839, primeiro com Stephan Endlicher como co-editor e posteriormente também com Eduard Fenzl, dada a magnitude da tarefa.
Contou com a colaboração de 65 autores, entre os quais figuravam muitos dos mais ilustres botânicos alemães e europeus da época. O projeto recebeu apoio financeiro do imperador Ferdinando I da Áustria, do rei Ludovico I da Baviera e do imperador Dom Pedro II do Brasil. Em 1840, foi publicado o primeiro dos 140 fascículos que iriam compor a obra, a qual foi terminada somente em 1906, muito após a morte de Martius (1868).
A Flora brasiliensis, na sua forma final, consiste de 15 volumes subdivididos em 40 partes originalmente publicadas na forma de 140 fascículos individuais. Descreve um total de 22.767 espécies, das quais 19.629 são nativas e 5.689 novas. O texto contém 20.733 "páginas" que, na realidade, são colunas (2 por página), e as 3.811 pranchas ilustram 6.246 espécies. Cinqüenta e nove litografias ilustram paisagens e tipos de vegetação, a maioria acompanhada de um texto descritivo elaborado por Martius.
Além das 59 estampas de paisagem (Tabulae physiognomicae), o volume I da Flora Brasiliensis contém ainda dois mapas (Tabulae Geographicae). Um desses mapas (figura à esquerda) mostra as cinco províncias florísticas reconhecidas por Martius para o Brasil. Apesar da imprecisão de alguns limites, as províncias florísticas de Martius mostram-se grandemente consistentes com as delimitações ulteriores baseadas em volumes crescentes de dados ao longo do século XX e XXI (figura à direita).
Die Physiognomie des Pflanzenreiches in Brasilien ... (1824), de Carl Friedrich Philipp von MartiusFonte original: Wikimedia commons
Isto é: no sistema de von Martius residem os primórdios da classificação dos grandes biomas brasileiros. Curiosamente, Martius já havia apresentado o seu sistema de classificação na obra "A fisionomia dos reinos de plantas do Brasil" (1824), muito antes de publicar o mapa em 1858.
Em 1843, Martius publicou o livro “Plantas usadas pelos brasileiros e suas substâncias medicinais.” Essa obra contém informações sobre os usos tradicionais de 800 espécies de plantas, 90% delas nativas do Brasil. É um marco para a compreensão da importância da biodiversidade vegetal brasileira e seus usos tradicionais associados.
Martius foi um dos primeiros estudiosos a pesquisar os dialetos indígenas do Brasil. Passou mais de 40 anos analisando os diferentes idiomas, identificando a origem comum das palavras e organizando os povos em função dos grupos linguísticos e do espaço geográfico que ocupavam. Pouco antes de morrer, publicou "Glossarios de Diversas Lingoas e Dialectos, que Fallao os Indios no Imperio do Brazil" (1863) e "Contribuição para a etnografia e linguística da América, especialmente do Brasil" (1867).
Além de todas essas obras, em 1831, Martius redigiu um texto que ficou inédito por um bom tempo - Frey Apollonio: um romance do Brasil, vivido e narrado por Hartoman. Transcrito e traduzido ao português por Erwin Theodor Rosenthal, foi publicado somente em 1992. Trata-se de uma versão ficcional da viagem pela Amazônia, onde o autor revê de forma autocrítica a sua apresentação preconceituosa dos indígenas. Os principais lugares do enredo são as aldeias indígenas ao longo do Rio Japurá.
Martius por Franz Hanfstaengl (1860), de Franz HanfstaenglFonte original: Wikimedia commons
Ainda durante a vida, Martius tornou-se um botânico famoso e uma autoridade muito respeitada. Até o final de seus dias, manteve contato com vários colegas ao redor do mundo. Embora nunca mais tenha saído da Europa, recebeu inúmeros espécimes de herbário de todos os continentes.
Jardim Botânico de Bruxelas (1829-1860), de Henri BorremansFonte original: Wikimedia Commons
Este herbário privado foi vendido após sua morte para Bruxelas, onde tornou-se o núcleo do recém-fundado Herbário do Jardim Botânico de Meise. Martius faleceu em Munique, aos 74 anos de idade, em 13 de dezembro de 1868.
Pesquisa e redação: Fernando B. Matos (CRIA) & Vanderlei Canhos (CRIA)
Montagem: Fernando B. Matos (CRIA)
Revisão: Renato De Giovanni (CRIA)
Referências: Viagem pelo Brasil (https://www2.senado.leg.br/bdsf/handle/id/573991);
Nova Genera et Species Plantarum (https://www.biodiversitylibrary.org/bibliography/450);
Icones Plantarum Cryptogamicarum (https://www.biodiversitylibrary.org/bibliography/16100);
Historia Naturalis Palmarum (https://www.biodiversitylibrary.org/bibliography/506);
Flora Brasiliensis (http://florabrasiliensis.cria.org.br/opus)
Informações adicionais: http://florabrasiliensis.cria.org.br/stories
Agradecimentos: Aos autores de todas as imagens utilizadas nesta história.
*Todos os esforços foram feitos para creditar as imagens, áudios e vídeos e contar corretamente os episódios narrados nas exposições. Caso encontre erros e/ou omissões, favor entrar em contato pelo e-mail contato@cria.org.br