CRIA - Centro de Referência em Informação Ambiental
Fernando B. Matos
Vol. I, Part I, Fasc. See Urban Plate 1 (1906)CRIA - Centro de Referência em Informação Ambiental
Martius na Amazônia
"A força geradora da terra [...] produz formas de plantas estranhas ao tipo real, fazendo lembrar as dos animais. Assim, surge do brejo a Helosis guyanensis, uma parasita semelhante ao falo, um cone carnoso pardo-purpurino sem folhas — um singular cogumelo com flores."
Helosis cayanensis_v02 (22 de novembro, 2013), de Marcelo Fragomeni SimonFonte original: specieslink
"O solo, quase todo coberto de matérias putrefatas [...] muito favorece o desenvolvimento de saprófitos; notamos alguns gigantescos cogumelos de chapéu, os quais ao lado da estranha Helosis vermelha, perecida com o falo, pareciam caracterizar a feição dessas matas virgens".
Foi assim que Martius descreveu os seus encontros com as "espigas-de-sangue" na Amazônia, no terceiro volume de seu livro sobre a Viagem pelo Brasil (1831).
Parasitas obrigatórias
Também conhecidas como "cogumelo-de-sangue", "espiga-de-dragão" e "urupê", as espécies do gênero Helosis são parasitas de diversas plantas tropicais. Não realizam fotossíntese, e por isso dependem totalmente dos nutrientes que roubam de seus hospedeiros.
Parecem cogumelos, mas não são
Pertencem ao grupo das plantas com flores (angiospermas), mas muitas vezes são confundidas com cogumelos, pois suas inflorescências são carnosas, vermelhas e brotam junto ao chão.
Velacho (Helosis cayennensis), Parana (26 de setembro, 2020), de Marcelo BrottoFonte original: iNaturalist
As flores da espiga-de-dragão
Suas flores são totalmente cobertas por brácteas hexagonais, as quais lembram os gomos de uma bola de futebol ou as escamas de um réptil. Essas brácteas caem naturalmente, deixando as flores expostas para os polinizadores.
Helosis cayennensis, Costa Rica (29 de dezembro, 2008), de Reinaldo AguilarFonte original: Tropicos
Inflorescências femininas
Aqui vemos uma inflorescência feminina sem brácteas. Os numerosos filamentos brancos são as flores femininas, que estão entre as menores do reino vegetal. Note as grandes gotas de néctar e também as cicatrizes das brácteas.
Nas inflorescências masculinas, cada flor apresenta três pétalas envolvendo um grupo de três estames unidos. Apesar de serem menos numerosas, essas flores masculinas são bem maiores e mais espaçadas do que as femininas.
Vol. IV, Part II, Fasc. 47 Plate 5 (1869-05-01)CRIA - Centro de Referência em Informação Ambiental
Estolões e tubérculos
Além das inflorescências vistosas, apresentam um complexo sistema subterrâneo formado por estolões e tubérculos. Os tubérculos armazenam os nutrientes extraídos da planta hospedeira e dão origem aos estolões. Os estolões se espalham pelo solo e dão origem a novas inflorescências.
No Brasil ocorrem duas espécies de Helosis. Aquela que Martius viu na Amazonia é a Helosis cayanensis, uma espécie amplamente distribuída na América tropical.
A outra é a Helosis brasiliensis, espécie endêmica da Floresta Atlântica. Difere de Helosis cayanensis principalmente pelas inflorescências mais esféricas e brácteas piramidais (vs. arredondadas a truncadas).
Langsdorffia (09 de maio, 2015), de Fábio Júnio Santos FonsecaFonte original: Wikimedia Commons
A família Balanophoraceae
As "espigas-de-sangue" desafiam quase tudo o sabemos sobre as plantas "convencionais". Clique aqui para aprender mais sobre as balanoforáceas, família botânica que inclui Helosis e outros 17 gêneros incríveis de plantas parasitas.
Pesquisa e redação: Fernando B. Matos (CRIA)
Montagem: Fernando B. Matos (CRIA)
Revisão: Luiza F.A. de Paula (UFMG/CRIA), Renato De Giovanni (CRIA)
Referências: Flora Brasiliensis (http://florabrasiliensis.cria.org.br/opus); Viagem pelo Brasil (https://www2.senado.leg.br/bdsf/handle/id/573991)
Informações adicionais: http://florabrasiliensis.cria.org.br/stories
Agradecimentos: Aos autores de todas as imagens utilizadas na história.
*Todos os esforços foram feitos para creditar as imagens, áudios e vídeos e contar corretamente os episódios narrados nas exposições. Caso encontre erros e/ou omissões, favor entrar em contato pelo e-mail contato@cria.org.br