St. Ulrich, Ender (1860), de Thomas EnderFonte original: Artsy
Thomas Ender (1793-1875) nasceu no subúrbio vienense de St. Ulrich, na Áustria. Com apenas 13 anos de idade foi admitido na Academia de Belas-Artes de Viena, juntamente com seu irmão gêmeo Johann Ender, que também tornou-se um reconhecido pintor.
Emperor Francis I of Austria (1832), de Friedrich von AmerlingAlte Nationalgalerie, Staatliche Museen zu Berlin
Na Academia, Thomas Ender mostrou grande interesse pelos estudos da natureza e das paisagens, e suas pinturas foram logo ganhando destaque. Aos 23 anos foi escolhido pelo imperador da Áustria, Francisco I, para ocupar o cargo de pintor oficial da Missão Austríaca no Brasil.
Retrato de Maria Leopoldina da Áustria (1815), de Joseph KreutzingerFonte original: Wikimedia commons
Missão Austríaca no Brasil
A Missão Austríaca foi uma expedição artístico-científica formada por ocasião do casamento de Leopoldina, filha do imperador da Áustria, com o príncipe herdeiro de Portugal (Dom Pedro I). Reuniu naturalistas e artistas não apenas da Áustria, mas também da Baviera e da Itália.
Die Österreichischen Kamer Herm auf der Reise nach St. Paul (1817), de Thomas Ender (1793-1875)Fonte original: Spix Museum
Botânica
Na Missão Austríaca, a pintura botânica já contava com um especialista, o pintor austríaco Johann Buchberger (?-1821). Não era, portanto, atribuição de Ender pintar de forma classificatória a vegetação. Seu objetivo principal era retratar apenas as paisagens.
Thomas Ender (1831), de Friedrich von AmerlingFonte original: Wikimedia commons
Logo no início da expedição, no entanto, Buchberger sofreu um gravíssimo acidente, caindo de sua mula sobre um galho que perfurou seu abdômen. Ender viu-se obrigado a acumular as tarefas de seu colega. Buchberger nunca recuperou-se do acidente, falecendo em Viena em 1821.
Durante os dois anos em que acompanhou a expedição (1817-1818), Ender realizou diversos desenhos esquemáticos e aquarelas de plantas brasileiras. Esses trabalhos voltados exclusivamente à flora escaparam ao aspecto científico do programa naturalista, tendo sido empregados como elementos realistas nas composições das paisagens. Diversos desses trabalhos foram incluídos em seu Álbum de Viagem, o qual foi adquirido pela Biblioteca Nacional do Rio Janeiro em 1937.
Flora Brasiliensis: Vol. VI, Part II, Fasc. 62 Column 0 (1873-06-01)CRIA - Centro de Referência em Informação Ambiental
Flora Brasiliensis
O maior número de gravuras realizadas a partir das aquarelas de Thomas Ender pertence às imagens litografadas para o primeiro volume da obra mais ambiciosa de von Martius: a Flora Brasiliensis.
Martius começou a escrever esse livro em 1833, mas a obra, escrita em latim, só começou a ser publicada em fascículos a partir de 1840, quando o então chanceler da Áustria, príncipe Metternich, decidiu financiar a obra juntamente com D. Pedro II.
A Flora Brasiliensis, na sua forma final, consiste de 15 volumes subdivididos em 40 partes originalmente publicadas na forma de 140 fascículos individuais. As gravuras de Ender integram a iconografia do primeiro volume, intitulado "Tabulae Physiognomicae". Este volume contém 59 litografias baseadas nas obras de grandes artistas europeus, entre eles os pintores Benjamin Mary (1792-1846), Johann Moritz Rugendas (1802-1858) e Thomas Ender (1793-1875).
Vista do Cume do Corcovado, a 1500 pés de altura, sobre o oceano (1817-1818), de Thomas EnderFonte original: Wikimedia commons
Modelos para a Flora Brasiliensis
Como pintor oficial da Missão Austríaca, Thomas Ender acompanhou os naturalistas Spix e Martius pelo Rio de Janeiro e São Paulo. Aqui e nas telas seguintes, apresentaremos algumas das aquarelas que foram utilizadas como modelos para as litogravuras da Flora Brasiliensis.
Vista do Cimo do Corcovado, perto de São Sebastião do Rio de Janeiro.
Floresta no morro Corcovado, perto de São Sebastião, província do Rio de Janeiro.
Floresta no morro do Corcovado, perto do aqueduto da fonte Carioca. Essa aquarela mostra, ao mesmo tempo, a exuberância vegetal que ainda restava naquela época e o desmatamento para o plantio do café.
Vale das Laranjeiras perto de São Sebastião do Rio de Janeiro.
Vista do cimo do monte na Serra de Itaguaí, em direção ao oriente, província do Rio de Janeiro.
Os campos gerais junto à Serra da Mantiqueira perto de Lorena, Província de São Paulo.
Monte chamado Morro Formoso, no limite das províncias do Rio de Janeiro e São Paulo.
Campos chamados gerais, perto de Mogi das Cruzes, na província de São Paulo.
De São Paulo, Spix e Martius partiram para sua grande expedição pelo interior do Brasil, ao passo que Ender, em janeiro de 1818, retornou ao Rio de Janeiro por estar enfraquecido. Fascinado pelo Brasil, Ender pintou até a exaustão. O clima quente e úmido contribuiu para que, com uma forte febre, ele ficasse acamado. O barão de Langsdorff foi quem se ocupou de seus cuidados, levando-o de volta a Fazenda da Mandioca e ao revigorante clima da Serra dos Órgãos.
Rancho auf dem Wege nach Mandioca (1817), de Thomas EnderFonte original: Wikimedia commons
Após recuperar-se na Fazenda Mandioca, Ender retornou à Europa em junho de 1818 com os primeiros repatriados da Missão Austríaca. Ainda que estivesse retornando antes do planejado, o fato é que Ender cumpriu brilhantemente a missão que havia recebido do imperador Francisco I.
Mariana, Thomas Ender (1817-1818), de Thomas EnderFonte original: Wikimedia Commons
Thomas Ender no interior do Brasil?
Ender nunca esteve em Goiás ou Minas Gerais, mas seu talento permitiu que se apropriasse artisticamente de esboços feitos por Johann Emanuel Pohl (1782-1834) com uma câmera lúcida. No total, Ender produziu 23 aquarelas com paisagens incríveis da região centro-oeste do Brasil.
Thomas Ender (1831), de Friedrich von AmerlingFonte original: Wikimedia commons
Resultados da viagem
No total, Ender entregou ao imperador 763 aquarelas e desenhos dessa viagem; 568 pranchas tinham o Brasil como tema, 177 surgiram durante a travessia. Além disso, entregou ao seu benfeitor em Viena, príncipe Metternich, um álbum de esboços com 244 rascunhos em lápis e aquarela.
Pesquisa e redação: Fernando B. Matos (CRIA)
Montagem: Fernando B. Matos (CRIA)
Revisão: Renato De Giovanni (CRIA)
Referências: Flora Brasiliensis (http://florabrasiliensis.cria.org.br/opus), Viagem pelo Brasil (https://www2.senado.leg.br/bdsf/handle/id/573991), Ender e o Brasil, obra completa (Julio Bandeira, 2022. Editora Capivara).
Informações adicionais: http://florabrasiliensis.cria.org.br/stories
Agradecimentos: Akademie der bildenden Künste, Viena; Biblioteca Nacional do Rio de Janeiro; Österreichische Nationalbibliothek.
*Todos os esforços foram feitos para creditar as imagens, áudios e vídeos e contar corretamente os episódios narrados nas exposições. Caso encontre erros e/ou omissões, favor entrar em contato pelo e-mail contato@cria.org.br