CRIA - Centro de Referência em Informação Ambiental
Fernando B. Matos & Pedro Fiaschi
Flora Brasiliensis: Vol. I, Part I, Fasc. See Urban Plate 6 (1906)CRIA - Centro de Referência em Informação Ambiental
Flora brasiliensis
A Flora Brasiliensis é um marco da botânica mundial. Embora iniciada em 1840, seu volume 1 foi publicado por último, em 1906, com 59 gravuras de paisagens brasileiras. Nesta história, embarcaremos em um “passeio botânico” por uma delas, destacando suas plantas.
As palavras de Martius
"Embora tenha visto muitas e variadas florestas primitivas em outras partes do Brasil, nenhuma me pareceu tão bela e amena quanto aquelas que cercam a cidade do Rio de Janeiro, cobrindo as encostas das montanhas conhecidas como Serra do Mar."
"A árvore alta ao centro é a 'sapucaia-miúda' (Eschweilera compressa). Com um caule reto e indiviso, sua copa pode atingir 20-25 m de altura. É tão imponente que não coube nos limites da gravura."
"Ela é circundada de cipós que a constringem fortemente, descendo por ela com muitas voltas. Não quero afirmar quais gêneros aparecem primeiro, mas que sejam as apocináceas e as asclepiadáceas me parece bastante provável. Quando feridos espalham um líquido branco e desagradável"
"As outras lianas que se sobressaem com grandes folhas verdes e brilhantes, pertencem a várias espécies de Banisteria, Smilax, Serjania e Bignonia e abraçam suavemente a árvore com laços bem soltos."
"Um pouco mais ao alto, destaca-se um tufo de Anthurium coriaceum com suas grandes folhas coriáceas, enquanto, no topo, pendem as longas folhas de uma bromélia. Embora eu não consiga nomear esta bromélia, a figura a retrata com grande precisão."
"À esquerda desta árvore, veremos no canto posterior uma graciosa 'canela preta' (Nectandra reticulata), cuja madeira muitas vezes é utilizada na fabricação de caixas de açúcar. Na frente dela vemos uma delicada arvorezinha de folhas estreitas e ramos elevados: é a embira [...]."
"(Xylopia sericea), cujos frutos aromáticos são consumidos como pimenta-da-terra. Mais à direita há uma Acacia cujo tronco está envolvido por um cipó mata-pau (Ficus sp.). A quarta árvore elevada é o jequitibá (Cariniana legalis), ótimo para a construção de casas de madeira."
"Esta árvore, cuja companheira mais ampla pode ser vista na segunda parte da gravura, possui um caule indiviso de 20 ou 25 m que ao final se espalha numa suave copa semi-globosa. Ela desenvolve lentamente um resistente e flexível lenho, e quando adulta cobre-se de muitos cipós."
"Na frente da Acacia [talvez Senegalia] com o cipó mata-pau, vemos uma árvore pequena ornada com uma densa copa e tronco claro, mas bastante fraco: é a Ficus americana, de cujos ramos inclinados descem as Bannisteria."
"Diante dela estão os restos de uma árvore gigante, recém-caída e adornada por espécimes de Anthurium e Epiphyllum phyllanthus. Perto dela, uma rubiácea arbustiva chamada Schizocalyx cuspidatus exibe grandes folhas e ramos compridos."
"Na parte anterior vemos a larga folha de Goeppertia zebrina e uma Heliconia que emerge do chão lamacento por entre as pedras banhadas pelas águas de uma fonte. O grande Anthurium pentaphyllum tem um tufo caído e meio podre. À direita vemos uma touceira de cogumelos Agaricus."
"A árvore vistosa de tronco claro e folhas pinadas, à direita da sapucaia-miúda (Eschweilera compressa), é a Inga, que os brasileiros chamam de ingazeiro bravo porque não tem os frutos comestíveis como os da Inga edulis."
"Depois dela aparece a Leandra melastomoides, sobrepujada pela jovem arvorezinha Ceiba erianthos junto de uma Palicourea e ainda a bela planta pacova-sororoca (Alpinia nutans)."
"Voltada mais para a direita vemos a imponente palmeira silvestre Geonoma pohliana."
"E na parte dianteira, também à direita, ergue-se a Ficus longifolia, notável pelo tamanho das folhas, que abriga tanto nos ramos como no tronco numerosas epífitas como Anthurium coriaceum, A. longifolium, A. pentaphyllum, e Syngonium auritum."
"As mesmas epífitas, várias bromélias do gênero Billbergia (B. zebrina, B. pyramidalis, B. iridifolia) e Neoregelia cruenta hospedam-se nos troncos vizinhos, já em estado de putrefação."
"Também aí aparece a embaúba (Cecropia pachystachya), árvore que se destaca pela brancura da casca betulácea, com os ramos um pouco flexíveis e largamente espalhados, tendo grandes folhas alegremente verdes no lado de cima e a parte inferior do limbo coberta de uma alva lanugem."
"Deus queira que o leitor benévolo nos tenha acompanhado com o pensamento através dessas densas e verdejantes matas e sentido o mesmo prazer que experimentamos outrora ao caminhar por elas."
"Para o leitor isso certamente será cômodo, pois não terá de se afligir com o calor insuportável nem com as frequentes ferroadas dos mosquitos ou com a ponta aguçada dos espinhos. Também não será atormentado com o fogo das Urtica e das Loasa [...]"
"[...] e estará livre do medo de ser subitamente aniquilado com a mordida de uma cobra venenosa, coisas que na verdade são atrocíssimas e que só para quem ama exageradamente a natureza poderão ser tidas como ninharias."
Pesquisa e redação: Fernando B. Matos (CRIA) & Pedro Fiaschi (UFSC)
Montagem: Fernando B. Matos (CRIA)
Revisão: Renato De Giovanni (CRIA)
Referências: Flora Brasiliensis (http://florabrasiliensis.cria.org.br/opus); Viagem pelo Brasil (https://www2.senado.leg.br/bdsf/handle/id/573991)
Informações adicionais: https://historias.cria.org.br
Agradecimentos: Esta história foi baseada no texto explicativo que acompanha a litografia n. 6 da Flora Brasiliensis (Martius 1906: 9-17).
*Todos os esforços foram feitos para creditar as imagens, áudios e vídeos e contar corretamente os episódios narrados nas exposições. Caso encontre erros e/ou omissões, favor entrar em contato pelo e-mail contato@cria.org.br