Seringueira: a árvore da borracha

Da selva amazônica às cidades industriais, a trajetória do látex que mudou o rumo da história mundial

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Seringueira (24 de setembro, 2011), de asanoFonte original: Wikimedia commons

A árvore da borracha

Nativa da Amazônia, a seringueira (Hevea brasiliensis) cresce em áreas inundáveis da floresta, atingindo até 40 metros de altura. De seu tronco escorre o látex, uma substância leitosa que mudou o rumo da história mundial.

Hevea brasiliensis (1897), de Franz Eugen Köhler e Karl GüntherFonte original: Wikicommons

Saberes indígenas

Povos amazônicos utilizavam o látex da seringueira para impermeabilizar tecidos, moldar objetos e até criar calçados. Já os jogos com bolas de borracha eram tradição entre maias e astecas, que usavam outra árvore: a Castilla elastica.

Uma grande seringueira no Peru (31 de dezembro de 1888), de Charles KroehleFonte original: Wikicommons

O encontro com os europeus

No século XVI, cronistas espanhóis relataram indígenas moldando o látex em torno de vasilhas de barro, criando recipientes elásticos que surpreenderam os colonizadores. Séculos depois, naturalistas como La Condamine descreveram suas propriedades, despertando o interesse europeu.

Charles Goodyer (1901), de Milton HadleyFonte original: Library of Congress

A borracha e a Revolução Industrial

No século XIX, a borracha ganhou o mundo. Vulcanizada por Charles Goodyear em 1839, tornou-se insumo vital para pneus, cabos, isolantes, preservativos e outros inúmeros produtos. A Amazônia viveu então o 'ciclo da borracha', com riqueza e contradições.

Teatro Amazonas (27 de setembro de 2017), de photobomFonte original: Wikicommons

A Belle Époque amazônica

A extração do látex transformou as cidades de Manaus e Belém em símbolos de luxo tropical. Teatros, palácios e avenidas refletiam a opulência gerada pela borracha, enquanto seringueiros enfrentavam condições duras na floresta.

Sir Henry Wickham (1900), de Bain News ServiceFonte original: Library of Congress

O contrabando das sementes

Em 1876, Henry Wickham levou clandestinamente cerca de 70 mil sementes de Hevea da Amazônia para o Jardim Botânico de Kew, em Londres. Ali germinaram cerca de 3 mil mudas, que logo seriam enviadas para além da Europa.

Caixa de Ward (1890), de Fotógrafo desconhecidoFonte original: Royal Botanic Gardens, Kew

As caixas de Ward

As mudas cultivadas em Kew foram enviadas para a Ásia em caixas de Ward (mini estufas de vidro e madeira que revolucionaram o transporte de plantas). Essas remessas possibilitaram a formação de vastos seringais no sudeste asiático, rompendo o monopólio da borracha amazônica.

Plantio de seringueiras em Samoa (1918), de Alfred James TattersallFonte original: Museum of New Zealand Te Papa Tongarewa

Queda e reinvenção

Com o avanço dos seringais asiáticos, a Amazônia entrou em declínio econômico. Ainda assim, a seringueira seguiu central na vida regional, sustentando modos de vida e mantendo viva a cultura extrativista da floresta.

Casa de força em Fordlândia, Brasil (05 de setembro de 2010), de Amit EvronFonte original: Wikicommons

Fordlândia

Nos anos 1920, Henry Ford tentou criar no Pará uma cidade-modelo americana para garantir borracha a sua indústria. A Fordlândia fracassou diante das pragas, do choque cultural e da resistência amazônica, mas virou símbolo da globalização precoce.

De soldados da borracha a heróis anônimos, de Fundo Paulo de Assis Ribeiro, Arquivo NacionalFonte original: Arquivo Nacional

Soldados da borracha

Durante a Segunda Guerra Mundial, a Amazônia voltou a fornecer látex aos Aliados. Milhares de migrantes, os 'soldados da borracha', enfrentaram a floresta para manter o abastecimento, numa epopeia marcada por sacrifícios e esperanças.

Chico and Ilsamar Mendes (01 de novembro de 1988), de Miranda SmithFonte original: Wikicommons

Chico Mendes

Nos anos 1980, o seringueiro Chico Mendes liderou a luta por reservas extrativistas, defendendo a floresta em pé e a justiça social. Assassinado em 1988, tornou-se símbolo mundial da resistência socioambiental e inspiração para novas gerações.

Prática ancestral de sangria da seringueira pelos Rikbaktsa, de Mariana BassaniFonte original: CicloVivo

Símbolo da bioeconomia

Hoje, a seringueira é símbolo de uma bioeconomia possível: conservar a floresta, valorizar os povos guardiões e inovar de forma sustentável. Da seiva que escorre do tronco brotam memórias, desafios e caminhos para o futuro.

Créditos: história

Pesquisa e redação: Fernando B. Matos (CRIA)
Montagem: Fernando B. Matos (CRIA)
Revisão: Vanderlei Canhos (CRIA)
Referências: Flora Brasiliensis (http://florabrasiliensis.cria.org.br); Viagem pelo Brasil (https://www2.senado.leg.br/); Laws (2010) Fifty plants that changed the course of history. Quid Publishing; Olsen (2025). Biodiverso: a potência da floresta em pé e da união de seus povos. CicloVivo (https://ciclovivo.com.br/).
Informações adicionais: http://florabrasiliensis.cria.org.br/stories
Agradecimentos: Aos autores das imagens que ilustram esta exposição, em especial à fotógrafa Mariana Bassani e ao portal de notícias CicloVivo, pela autorização de uso da fotografia que encerra esta história.

*Todos os esforços foram feitos para creditar as imagens, áudios e vídeos e contar corretamente os episódios narrados nas exposições. Caso encontre erros e/ou omissões, favor entrar em contato pelo e-mail contato@cria.org.br

Créditos: todas as mídias
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