CRIA - Centro de Referência em Informação Ambiental

Daniela Zappi, Jomar Jardim & Fernando B. Matos

Martius na Caatinga

Um passeio botânico pela litografia n. 10 da Flora Brasiliensis

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Vol. I, Part I, Fasc. See Urban Plate 10 (1906)CRIA - Centro de Referência em Informação Ambiental

Flora brasiliensis

A Flora Brasiliensis é um marco da botânica mundial. Embora iniciada em 1840, seu volume 1 foi publicado por último, em 1906, com 59 gravuras de paisagens brasileiras. Nesta história, embarcaremos em um “passeio botânico” por uma delas, destacando suas plantas.

O bioma Caatinga

A maior extensão de Floresta Estacional Seca no Neotrópico fica no Domínio Fitogeográfico (ou bioma) Caatinga. Coincide com o polígono das secas do Nordeste brasileiro, estendendo-se desde o norte de Minas Gerais até o Piauí e Maranhão, atingindo maior diversidade na Bahia.

A Jornada de von Martius pela Caatinga

Martius conheceu a Caatinga em 1818, após explorar as florestas úmidas da Mata Atlântica e os cerrados de Minas Gerais. Ele comparou essas vegetações e discutiu a importância da água para as plantas, correlacionando a deciduidade da Caatinga com os bosques europeus no inverno.

A Flora da Caatinga

A palmeira em destaque é Syagrus coronata, conhecida popularmente como aricuri, licuri, ouricuri ou palmeira-sertaneja. Adaptada ao clima seco da caatinga, possui grande potencial alimentício, ornamental, forrageiro e artesanal. Seu manejo é de grande importância para a região.

Na parte anterior, está o Melocactus, um cacto globoso conhecido como "cabeça-de-frade", com seu característico cefálio apical. Atrás dele vemos uma população de Bromelia laciniosa, chamada pelos habitantes locais de "macambira". Da base de suas folhas é extraída uma massa para pão.

A arvoreta de folhagem escura vista nessa parte é o Cnidoscolus quercifolius, conhecido como "faveleira", com suas folhas armadas com espinhos urticantes e látex abundante.

Mais ao fundo, um grande tronco de Cereus jamacaru, o icônico "mandacaru", disputa em altura e espessura com as outras árvores do bosque, abrigando bromélias e Amphilophium crucigerum, uma bignoniácea trepadeira conhecida como "pente-de-macaco".

Na base do "mandacaru", há outra cactácea típica da Caatinga: a Tacinga palmadora, conhecida como "palma" ou "palmatória-de-espinho", facilmente reconhecível por seus cladódios achatados com segmentos obovados, espinhos longos e flores vermelhas.

Perto, há um tronco morto com grandes moitas de Aechmea patentissima, uma bromélia de flores lilases, muito ornamental. Em situação de sede extrema, Martius e seus companheiros foram salvos pela água armazenada no centro dessas bromélias. Na outra árvore, vemos plantas parasitas.

No centro da imagem destaca-se a Cavanillesia umbellata, também conhecida como "barriguda". Trata-se de uma árvore muito grande e carismática, com troncos em forma de barril e copas desproporcionalmente pequenas.

Em primeiro plano, na frente da "barriguda" e no meio da estampa, vemos arbustos de Xiquexique gounellei, espécie de cactácea característica por seus ramos candelabriformes.

Logo à direita, no solo desnudo, um grupo de indivíduos de Jatropha martiusii, uma planta da família Euphorbiaceae que contém grande quantidade de látex. Von Martius lista várias espécies de plantas laticíferas e resiníferas integrando as diferentes paisagens da Caatinga.

A grande árvore que espalha seus ramos na parte direita anterior é a Commiphora leptophloeos, conhecida como "imburana". Trata-se de uma planta notável por sua resina aromática medicinal, seus frutos comestíveis, e sua casca lisa, que se desprende em lâminas finas e irregulares.

Sobre ela se esgueiram algumas trepadeiras dos gêneros Cissus e Paullinia. Ao lado direito, ergue-se o Colicodendron yco, um arbusto de folhas sempre verdes que se sobressaem na vegetação da caatinga. Suas folhas costumam atrair cavalos e mulas, porém causam cólicas e diarréia.

Do lado esquerdo vemos um arbusto enorme do cacto Tacinga inamoena, conhecido como "quipá".

As bromélias "macambira", que crescem no canto inferior direito, o caule altíssimo do cacto "mandacaru", e as moitas de parasitas da família Santalaceae nos galhos mais altos completam as plantas que Martius quis destacar nesta estampa.

Longe de ser uma floresta degradada ou de menor importância, a Caatinga é um ambiente admirável apresentando muita diversidade, endemismos e formas de vida adaptadas à sazonalidade irregular (400–800 mm anuais), muitas vezes concentrada em algumas semanas ou meses do ano.

Créditos: história

Pesquisa e redação: Daniela C. Zappi (UnB), Jomar G. Jardim (UFSB/CEPEC) & Fernando B. Matos (CRIA)
Montagem: Fernando B. Matos (CRIA)
Revisão: Renato De Giovanni (CRIA)
Referências: Flora Brasiliensis (http://florabrasiliensis.cria.org.br/opus); Viagem pelo Brasil (https://www2.senado.leg.br/bdsf/handle/id/573991)
Informações adicionais: https://historias.cria.org.br
Agradecimentos: Esta história foi baseada no texto explicativo que acompanha a litografia n. 10 da Flora Brasiliensis (Martius 1906: 30-38).

*Todos os esforços foram feitos para creditar as imagens, áudios e vídeos e contar corretamente os episódios narrados nas exposições. Caso encontre erros e/ou omissões, favor entrar em contato pelo e-mail contato@cria.org.br

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