CRIA - Centro de Referência em Informação Ambiental
Fernando B. Matos & Lana Sylvestre
Flora Brasiliensis: Vol. I, Part I, Fasc. See Urban Plate 25 (1906)CRIA - Centro de Referência em Informação Ambiental
Spix Reiseatlas original 67 (1823), de Johann Baptist von Spix, Carl Friedrich Philipp von MartiusFonte original: Wikimedia Commons
O objetivo de Martius nessa viagem (12 de dezembro de 1819 a 2 de março de 1820), além de continuar com seus estudos botânicos, era conhecer algumas das tribos indígenas que ainda viviam "no seu estado primitivo" ao longo do rio Japurá.
Porto dos Miranhas, Rio Japurá (1823), de Johann Baptist von Spix, Carl Friedrich Philipp von MartiusFonte original: Wikimedia Commons
Porto dos Miranhas
Na segunda metade da viagem, já tendo cruzado a fronteira atual do Brasil com a Colômbia, Martius se deteve no Porto dos Miranhas. Sua comitiva foi recebida calorosamente por mais de 50 homens da tribo, que logo os conduziram à presença de seu chefe.
Porto dos Miranhas (1820), de Carl Friedrich Philipp von Martius (1794-1868)Fonte original: Wikimedia Commons
Chefe João Manuel
O chefe atendia pelo nome cristão de João Manuel. Ele era conhecido e temido em todo o alto Japurá, pois vivia da venda de escravos indígenas para os brancos e comandava uma das tribos mais poderosas daquela região. Com um detalhe curioso: eram canibais!
Miranhas (1823), de Johann Baptist von Spix, Carl Friedrich Philipp von MartiusFonte original: Instituto Moreira Salles
E assim relatou Martius:
"Trata-se de uma tribo de indígenas robustos, bem proporcionados, e de tez escura. O peito largo condiz com a largura do rosto, que parecia ainda mais largo pelo costume bizarro de alargar as asas do nariz. O afiamento dos dentes caninos concorre para desumanizá-los ainda mais."
Spix Reiseatlas original 61, de Johann Baptist von Spix, Carl Friedrich Philipp von MartiusFonte original: Wikimedia Commons
Cachoeira de Araracoara
Martius estava muito interessado em fazer negócios com esses miranhas, mas o chefe João Manuel havia saído para resolver um conflito na vizinhança. Martius aproveitou sua ausência para concluir sua viagem rio acima, alcançando a Cachoeira de Araracoara em 28 de janeiro de 1820.
Porto dos Miranhas, Rio Japurá (1823), de Johann Baptist von Spix, Carl Friedrich Philipp von MartiusFonte original: Wikimedia Commons
Após atingir o ponto mais ocidental de sua viagem, Martius retornou para o Porto dos Miranhas, onde passou cerca de 10 dias antes de retornar para Belém. Estava com a saúde muito debilitada e ainda precisava completar a construção de uma canoa para levar suas coleções.
Negócios
Certo dia, Martius disse ter ficado chocado ao ver o chefe João Manuel regressando de viagem com cerca de 30 guerreiros e alguns prisioneiros, inclusive mulheres e crianças. Ficou claro para ele que a intenção do chefe era trocar todos aqueles prisioneiros por suas mercadorias.
As trocas
"Custou-lhe, portanto, a compreender, quando eu lhe ofereci pelo ornamento de penas, pelas armas, e por uma bela samambaia em forma de leque (Schizaea), tantos machados e facas, quantos ele contava receber pelos prisioneiros." A samambaia encontra-se hoje no herbário de Munique.
Espécie nova!
Ao retornar para a Europa, Martius reexaminou o espécime e descobriu que se tratava de uma espécie nova para a ciência. A espécie foi descrita e ilustrada em seu "Icones Plantarum Cryptogamicarum", com o nome de Schizaea pacificans (ou seja, a Schizaea "pacificadora").
Significado do nome
Na obra original, além de uma magnífica ilustração colorida para a espécie, Martius também fornece uma explicação para o nome: "Este espécime único me foi dado como sinal de amizade pelo chefe dos Miranhas, quando ele trouxe pra casa os prisioneiros inimigos do ocidente."
Artigo de jornal, 1925
Curiosamente, junto ao holótipo da espécie há um artigo de jornal alemão intitulado “A história sangrenta da samambaia da paz no herbário de Munique." Esse artigo foi publicado em 1925, quase 60 anos após a morte de Martius, e conta sobre essa mesma história que vimos aqui.
Bradea (2023-04-06)CRIA - Centro de Referência em Informação Ambiental
Revista Bradea, 1969
Em 1969, a espécie foi escolhida como emblema da revista científica Bradea, "por se tratar de uma Pteridófita, grupo vegetal que recebeu as maiores atenções do nosso patrono (A.C. Brade), e por significar o símbolo da paz entre tribos indígenas do interior do Brasil."
Outras espécies novas
Martius ainda descreveu duas outras espécies do gênero Schizaea. Assim como a "samambaia pacificadora", essas duas outras espécies também foram coletadas durante a viagem pelo Rio Japurá.
Miranha e Juri, Atlas de viagem do Spix., de Carl Friedrich Philipp von Martius e Foto: Klaus SchönitzerFonte original: Freunde der ZSM
Para além das plantas
Mas nem tudo são flores: nas trocas com o chefe João Manuel, Martius acabou aceitando levar cinco de seus prisioneiros. Apenas dois deles chegaram vivos em Munique, mas isso é assunto para uma próxima história. Fiquem atentos no nosso canal.
Pesquisa e redação: Fernando B. Matos (CRIA) & Lana Sylvestre (UFRJ)
Montagem: Fernando B. Matos (CRIA)
Revisão: Luiza F.A. de Paula (CRIA/UFMG), Renato De Giovanni (CRIA)
Referências: Flora Brasiliensis (http://florabrasiliensis.cria.org.br/opus), Viagem pelo Brasil (https://www2.senado.leg.br/bdsf/handle/id/573991)
Informações adicionais: http://florabrasiliensis.cria.org.br/stories
Agradecimentos: Todos os autores das imagens e personagens da história, em especial ao Dr. Hans-Joachim Esser, curador de pteridófitas e monocotiledôneas do herbário de Munique, por fornecer imagens do espécime tipo de Schizaea pacificans.
*Todos os esforços foram feitos para creditar as imagens, áudios e vídeos e contar corretamente os episódios narrados nas exposições. Caso encontre erros e/ou omissões, favor entrar em contato pelo e-mail contato@cria.org.br