CRIA - Centro de Referência em Informação Ambiental
Karen Macknow Lisboa
Rancho não muito longe da Serra do Caraça (1823), de Johann Baptist von Spix, Carl Friedrich Philipp von MartiusFonte original: Wikimedia Commons
Estátua Spix (2003), de Helmut KunkelFonte original: Wikimedia Commons
Os resultados dessa viagem se perderiam se Spix e Martius não a transformassem em inesgotável fonte para a sua produção intelectual. E nisso Martius, em particular, foi exitoso, ao contrário de seu companheiro de viagem, que voltou muito doente, falecendo seis anos mais tarde.
Ainda assim, Spix publicou muitos estudos sobre a fauna brasileira. E dos animais por ele coletados e levados para a Europa, a maioria não foi destruída durante os bombardeios da 2a Guerra Mundial e se encontra hoje na Zoologische Staatssammlung München. (https://zsm.snsb.de)
A obra científica de ambos focou sobretudo assuntos brasileiros. Martius publicou vários estudos sobre os indígenas brasileiros, sua história, seu estado de direito, suas práticas medicinais, sua língua e costumes.
Martius também dedicou-se à historiografia. No tratado “Como se deve escrever a história do Brasil”, destinado a um concurso no IHGB, o naturalista sublinha a contribuição dos negros, indígenas e europeus na formação da nação brasileira, valorizando a miscigenação.
Flora Brasiliensis: Vol. I, Part I, Fasc. See Urban Plate 25 (1906)CRIA - Centro de Referência em Informação Ambiental
A expedição pelo rio Japurá, no alto Amazonas, foi também inspiração para Martius escrever um romance, bem no estilo romântico, em que se problematiza a ação dos brancos colonizadores, a tentativa de catequização dos indígenas e de seu trágico extermínio.
Spix Reiseatlas original 58 (1823), de Johann Baptist von Spix, Carl Friedrich Philipp von MartiusFonte original: Wikimedia Commons
O romance "Frey Apollonio" permaneceu em manuscrito por mais de 150 anos, vindo a ser publicado apenas em 1994. Nesse romance, Martius adota uma postura mais humanista, fazendo uma espécie de autocrítica às suas visões negativas e racistas sobre os indígenas.
Martius construiu uma ampla rede de trocas de saberes, tanto na Academia de Ciências como na Universidade, mas também com muitos interlocutores na Europa e no Brasil. No acervo de manuscritos da Biblioteca Estadual da Baviera encontram-se ca. de 11.000 cartas de/para Martius.
LIFE Photo Collection
Dentre os correspondentes contam Alexander von Humboldt, Georges Cuvier, linguistas como Jakob Grimm, poetas como Goethe. E colegas que estiveram no Brasil, como Wilhelm von Eschwege, Princípe Wied-Neuwied, Alcide Orbigny, Ferdinand Denis, August Saint-Hilaire, entre outros.
Coroação de D. Pedro II (estudo) (1840/1849), de Manuel de Araújo Porto AlegreMuseu Histórico Nacional
Do lado brasileiro, d. Pedro II, o pintor Araújo de Porto Alegre, o historiador Francisco A. Varnhagen, os botânicos Francisco Freire Alemão e José de Saldanha da Gama, o escritor e jornalista Januário da Cunha Barbosa, o naturalista e engenheiro Barão de Capanema e tantos mais.
Flora Brasiliensis: Vol. I, Part I, Fasc. See Urban Plate 57 (1906)CRIA - Centro de Referência em Informação Ambiental
Hoje em dia, a vasta obra (publicada e em manuscritos), os herbários, as coleções mineralógicas e zoo-botânicas, de artefatos indígenas e de melodias de Spix e Martius formam um enorme caudal para a investigação de todas as disciplinas, possibilitando a compreender o passado.
Pesquisa e redação: Karen Macknow Lisboa (Universidade de São Paulo)
Montagem: Fernando B. Matos (CRIA)
Revisão: Fernando B. Matos (CRIA), Renato De Giovanni (CRIA)
Referências: Flora Brasiliensis (http://florabrasiliensis.cria.org.br/opus), Viagem pelo Brasil (https://www2.senado.leg.br/bdsf/handle/id/573991)
Informações adicionais: http://florabrasiliensis.cria.org.br/stories
Agradecimentos: Aos curadores que forneceram imagens para esta história.
*Todos os esforços foram feitos para creditar as imagens, áudios e vídeos e contar corretamente os episódios narrados nas exposições. Caso encontre erros e/ou omissões, favor entrar em contato pelo e-mail contato@cria.org.br