CRIA - Centro de Referência em Informação Ambiental
Anita Ekman & João Paulo [Tukano] Lima Barreto
Aves engavetadas (2024), de Anita EkmanFonte original: Anita Ekman
O naturalista bávaro von Martius passou a vida catalogando o que coletou em apenas três anos (1817—1820) no Brasil. Ao lado do zoólogo Spix, percorreu mais de 10.000 km pelo país, visitando as capitanias do Rio de Janeiro, São Paulo, Minas Gerais, Bahia, Piauí, Maranhão e Grão-Pará.
João Paulo Tukano no herbário de Munique (2024), de Anita EkmanFonte original: Anita Ekman
Os resultados dessa expedição ajudaram a moldar o imaginário europeu sobre o Brasil e seus povos.
Martius e Spix levaram para a Europa diários de campo, diamantes, espécimes raros de fauna e flora e até 'peças vivas': plantas, animais e quatro jovens indígenas — três Miranhas e um Juri. Apenas dois sobreviveram à viagem, batizados como 'Isabella Miranha' e 'Johannes Juri', mas faleceram em menos de um ano em Munique. Seus corpos, assim como todo o material coletado, permanecem até hoje em solo europeu.
As coleções de Martius só foram possíveis graças ao conhecimento e trabalho de indígenas, africanos escravizados e seus descendentes. Sem eles, os forasteiros não teriam sobrevivido à jornada e nem coletado tanto material. Muitos desses povos já manejavam a Amazônia há cerca de 12 mil anos quando Martius a visitou e, posteriormente, a classificou.
A “Floresta-Parente”, como bem definiu o arqueólogo Carlos Augusto da Silva (conhecido carinhosamente como “Tijolo”), é fruto de uma inteligência ancestral e coletiva. Estudos comprovam que 60% da Amazônia é antropogênica — resultado do manejo indígena milenar, que ajudou a torná-la um dos ecossistemas mais biodiversos do planeta.
Conhecer e preservar a Floresta exige ir além dos relatos de "forasteiros" e suas expedições. É fundamental reconhecer e valorizar o conhecimento indígena, essencial para o manejo e a proteção da biodiversidade.
Revisitar as coleções de Martius e Spix nos museus é, portanto, essencial para reconstruir as histórias e os saberes dos povos originários, compartilhando esse legado com o mundo. Para os indígenas, os artefatos etnográficos não são apenas objetos, mas extensões dos corpos de quem os portava.
No sistema de conhecimento Yepamahsã (Tukano), a origem dos peixes não é explicada biologicamente, mas sim por meio de narrativas que entrelaçam eventos sociais dos waimahsã — humanos que habitam os domínios aéreo, terrestre (floresta) e aquático. Essas histórias incluem os bahsese, fórmulas rituais de assepsia alimentar.
No conhecimento Yepamahsã (Tukano), a origem das palmeiras está ligada à vegetalidade do corpo humano. Elas estão associadas à criação dos instrumentos musicais de miriã (jurupari), que surgiram do corpo do Bisio, um ser de musicalidade. De seus restos mortais nasceu a buhpuño (paxiubinha) e todas as outras palmeiras.
Há 10 anos, o antropólogo João Paulo Tukano escreveu “Palácio dos Mortos”, onde afirmou: “os objetos levados pelos europeus, especialmente os diademas, estão como pessoas falecidas. (...) Aquela casa que chamam de museu, onde guardam artefatos indígenas, é uma casa de mortos. O museu é um palácio dos mortos." (...) Qual seria então a função dos museus entre os que estão vivos e lutando pela continuidade da diversidade da vida nas Florestas?
Os museus podem desempenhar um papel vital na reconstrução das histórias indígenas, conectando passado, presente e futuro. Para isso, devem promover intercâmbios com conhecedores indígenas, financiar a recuperação de saberes e ajudar na repatriação de objetos, nem que seja por meio de registros tridimensionais. Também podem apoiar planos de manejo ambiental integrados às cosmovisões indígenas.
Martius influenciou a visão sobre a floresta e seus povos. Foi o primeiro a organizar os idiomas indígenas brasileiros em grupos linguísticos e transcreveu alguns de seus cantos em partituras. Também dividiu o Brasil em cinco 'províncias florísticas' — Mata Atlântica, Campos Gerais, Cerrado, Caatinga e Amazônia —, base da atual classificação dos biomas brasileiros.
O legado de Martius vai além da botânica: sua expedição moldou a forma como pensamos as florestas. Ele criou a classificação moderna das palmeiras e a Flora Brasiliensis, catalogando quase metade das 46.097 espécies vegetais conhecidas, 43% delas endêmicas. Mas seu impacto extrapola a ciência — o racismo científico que impulsionou ainda reverbera hoje.
Em sua dissertação Como se deve escrever a história do Brasil , Martius reforçou o racismo ao afirmar: "Jamais nos será permitido duvidar que a providência predestinou ao Brasil esta mescla. O sangue português, como um poderoso rio, deverá absorver os pequenos confluentes das raças índia e etiópica. Nas classes baixas ocorre essa mescla, e, como em todos os países, as classes superiores se formam a partir das inferiores (...)".
Os povos indígenas habitam a Amazônia há mais de 12 mil anos, desenvolvendo epistemologias próprias para organizar o mundo. Criaram diversas tecnologias em arquitetura, cerâmica, manipulação de alimentos, manejo da floresta, dos rios e da terra. Também desenvolveram a Medicina, entendida como a arte do cuidado com a saúde e da cura.
O racismo científico ainda marginaliza os conhecimentos indígenas sobre a floresta, a terra e os rios. É responsabilidade das instituições que detêm coleções indígenas promover ações concretas junto às comunidades, ajudando a desconstruir o imaginário colonial imposto pelas expedições europeias.
Pesquisa e redação: Anita Ekman (Goethe-Institut), João Paulo Lima Barreto (UFAM)
Montagem: Fernando B. Matos (CRIA)
Revisão: Fernando B. Matos (CRIA)
Referências: Flora Brasiliensis (http://florabrasiliensis.cria.org.br/opus), Viagem pelo Brasil (https://www2.senado.leg.br/bdsf/handle/id/573991), Barreto, J.P.L. (2022). O mundo em mim - Uma teoria indígena e os cuidados sobre o corpo no Alto Rio Negro (https://livraria.iieb.org.br/livros/o-mundo-em-mim-uma-teoria-indigena-e-os-cuidados-sobre-o-corpo-no-alto-rio-negro--p)
Informações adicionais: http://florabrasiliensis.cria.org.br/stories
Agradecimentos: Aos curadores das coleções visitadas e ao Instituto Goethe.
*Todos os esforços foram feitos para creditar as imagens, áudios e vídeos e contar corretamente os episódios narrados nas exposições. Caso encontre erros e/ou omissões, favor entrar em contato pelo e-mail contato@cria.org.br