CRIA - Centro de Referência em Informação Ambiental
Karen Macknow Lisboa
Árvore do conhecimento (1769-1780), de Robert Benard (gravador)Fonte original: Wikimedia Commons
Formados na herança da ciência enciclopedista, portanto ainda antes da disciplinarização do conhecimento, estes cientistas procuravam almejar o conhecimento universal. No Brasil, não apenas deveriam investigar a natureza mas também a sociedade, a sua história, cultura e hábitos.
Atlas Zur Reise in Brasilien (1823), de Johann Baptist von Spix, Carl Friedrich Philipp von MartiusFonte original: Wikimedia Commons
Rio de Janeiro (1823), de Johann Baptist von Spix, Carl Friedrich Philipp von MartiusFonte original: Wikimedia Commons
Após três anos em que investigaram fisicamente o Brasil também teriam atravessado, “em espírito”, todos os “graus do seu desenvolvimento, desde a condição de vida primitivas e como que patriarcais, até o estado que, no novo império, haviam alcançado burguesia, Estado e Igreja”.
Uma mameluca, uma cafusa (1823), de Johann Baptist von Spix, Carl Friedrich Philipp von MartiusFonte original: Wikimedia Commons
Diante da constatação que boa parte da população não era branca e europeia, defenderam a ideia da miscigenação como caminho para “branqueá-la” e “civilizá-la”.
Apesar dessa visão positiva sobre a miscigenação, os autores não se despedem de uma concepção hierarquizada das diferentes etnias.
Imagens da vida humana (1823), de Johann Baptist von Spix, Carl Friedrich Philipp von MartiusFonte original: Wikimedia Commons
Acreditavam que diferenças “raciais e culturais", uma característica da sociedade brasileira, impediam o processo civilizador. Este deveria ser conduzido pelos brancos, considerados “superiores” aos índios, mestiços e negros, atestando seu racismo, típico do período.
Descrevem o “mulato” como “facilmente excitável, de grande vivacidade, pronto para qualquer partida, contra o sossego, visando efeitos espalhafatosos”. O “desenfreado batuque” foi visto como uma "dança de feição obscena, quase imoral”.
Diamantes em Minas Gerais (1823), de Johann Baptist von Spix, Carl Friedrich Philipp von MartiusFonte original: Wikimedia Commons
Embora julgassem a escravidão uma instituição violadora dos direitos humanos, eles a toleraram pelo fato de que ela seria um caminho de “civilizar” os negros, considerados inferiores. Além disso, ela atuaria como “reforma moral” por levar aos africanos a “luz do cristianismo”.
Festa da bebida dos Coroados (1823), de Johann Baptist von Spix, Carl Friedrich Philipp von MartiusFonte original: Wikimedia Commons
Diante dos indígenas nutriram estranheza. Desconfiavam de sua humanidade, ora relegando-os ao reino animal ora a um lugar entre os “bárbaros” e “semi-civilizados”. Em muitas ilustrações, os indígenas, todos iguais, são representados com corpos deformados e rostos monstruosos.
Dança dos Puris (1823), de Johann Baptist von Spix, Carl Friedrich Philipp von MartiusFonte original: Wikimedia Commons
Suas descrições preconceituosas sobre os indígenas reiteram a imagem negativa ao considerá-los uma “degeneração do humano”, ancorada nas teses difamadoras sobre a natureza e os habitantes originais da América meridional defendidas por Buffon, Raynal e De Pauw.
Procissão festiva dos Ticunas (1823), de Johann Baptist von Spix, Carl Friedrich Philipp von MartiusFonte original: Wikimedia Commons
Além das observações e descrições sobre os indígenas, os autores coletaram numerosos objetos. A maior parte foi coletada na Amazônia, contendo instrumentos de caça, enfeites, utensílios domésticos e ritualísticos, como por exemplo as belas máscaras usadas nas festas dos Ticunas.
Ferramentas indígenas (1823), de Johann Baptist von Spix, Carl Friedrich Philipp von MartiusFonte original: Wikimedia Commons
Em Munique, a coleção permaneceu empacotada por décadas, em virtude da falta de espaço adequado. Em termos de política científica e institucional, a guarda adequada de objetos indígenas não era tida, na época, como prioritária.
Armas indígenas (1823), de Johann Baptist von Spix, Carl Friedrich Philipp von MartiusFonte original: Wikimedia Commons
Apenas em 1868, ou seja, 48 anos passados da missão ao Brasil, a coleção foi exposta ao público, quando da fundação do Museu de Etnologia em Munique. Hoje é considerada um dos testemunhos históricos e materiais mais ricos dos indígenas do Brasil da primeira metade do século XIX.
A menina Miranha (1823), de Johann Baptist von Spix, Carl Friedrich Philipp von MartiusFonte original: Wikimedia Commons
Semelhante a outros exploradores do período, Spix e Martius não se esquivaram de incluir indígenas em sua “coleção” como “peça viva” de gabinete. Dos seis que deveriam acompanha-los para Europa, apenas dois jovens sobreviveram à viagem de retorno até Munique.
O menino Juri (1823), de Johann Baptist von Spix, Carl Friedrich Philipp von MartiusFonte original: Wikimedia Commons
Pode-se falar de um rapto, na época autorizado pela ciência, baseada em preconceitos raciais. Foram levados à Europa para verificar se são capazes de se “civilizar”. A menina Miranha e o menino Juri faleceram alguns meses mais tarde em Munique.
Pesquisa e redação: Karen Macknow Lisboa (Universidade de São Paulo)
Montagem: Fernando B. Matos (CRIA)
Revisão: Fernando B. Matos (CRIA), Renato De Giovanni (CRIA)
Referências: Flora Brasiliensis (http://florabrasiliensis.cria.org.br/opus), Viagem pelo Brasil (https://www2.senado.leg.br/bdsf/handle/id/573991)
Informações adicionais: http://florabrasiliensis.cria.org.br/stories
Agradecimentos: Aos curadores que forneceram imagens para essa história.
*Todos os esforços foram feitos para creditar as imagens, áudios e vídeos e contar corretamente os episódios narrados nas exposições. Caso encontre erros e/ou omissões, favor entrar em contato pelo e-mail contato@cria.org.br