A magia das águas brasileiras e as ninfas que nelas habitam

Saiba mais sobre as ninfeáceas, família das estrelas-d'água, ninféias e victórias.

Ler

Hylas e as ninfas (1896), de John William WaterhouseFonte original: Wikimedia Commons

Origem das ninfas

Na mitologia grega, Gaia e sua filha Tétis eram tão férteis que produziram uma nova raça de divindades femininas conhecidas como ninfas. Essas pequenas deusas sempre pareciam jovens e bonitas, ocupando e protegendo diferentes reinos na terra ou na água.

Procession and dance of the nymphs (circa 1898), de Wilhelm VolzLos Angeles County Museum of Art

Gaia era mãe de todas as oréades (ninfas das montanhas), napéias (vales e ravinas), dríades (árvores) e limoníades (campinas floridas). Tétis era mãe e avó de todas as ninfas aquáticas, dentre elas as náiades (ninfas de água doce), nereides e oceânides (ambas marinhas).

Carl von Linné 1707–1778 (1775), de Alexxander RoslinFonte original: Wikimedia Commons

As plantas do gênero Nymphaea

Embora as ninfas ocupassem todos os habitats na mitologia clássica, é óbvio que Linnaeus estava pensando apenas nas náiades quando nomeou o gênero Nymphaea, pois são plantas exclusivamente aquáticas, que preferem rios lentos ou lagoas paradas.

Nymphaea waterlily hybrid, de RBG KewRoyal Botanic Gardens, Kew

Diversidade

Existem ao menos 40 espécies de Nymphaea pelo mundo, quase metade delas na América tropical. Várias espécies e cultivares exóticos foram introduzidos como ornamentais, e algumas espécies africanas estão hoje amplamente naturalizadas nas Américas.

Nymphaea, Jardim Botânico do Rio de Janeiro (26 de Abril, 2014), de VaqueroFrancisFonte original: flickr

Flora Brasiliensis

No Brasil são reconhecidas 27 espécies de Nymphaea, com registros em todos os estados brasileiros e em todos os tipos de vegetação, inclusive na Caatinga. Essas espécies são conhecidas popularmente como nenúfares ou ninféias.

Vol. I, Part I, Fasc. See Urban Plate 1 (1906)CRIA - Centro de Referência em Informação Ambiental

Amazônia

No volume 1 da Flora Brasiliensis, essas plantas aparecem no canto inferior direito da gravura n. 1 (mata de igapó): "As árvores envolvem as margens do rio e sombreiam as profundezas tranquilas por onde se espalham as grandes folhas peltadas das ninfeáceas." (Martius, 1906).

Flora Brasiliensis: Vol. I, Part I, Fasc. See Urban Plate 35 (1906)CRIA - Centro de Referência em Informação Ambiental

Mata Atlântica

E também na gravura n. 35 (mata atlântica): "Inicialmente, à esquerda de quem olha, aparece na água a imagem de uma certa Nymphaea albiflora [...]." (Martius, 1906).

Vol. IV, Part II, Fasc. 77 Plate 33, 1878-06-01, Da coleção de: CRIA - Centro de Referência em Informação Ambiental
,
Flora Brasiliensis: Vol. IV, Part II, Fasc. 77 Column 127 - 128, 1878-06-01, Da coleção de: CRIA - Centro de Referência em Informação Ambiental
Mostrar menosMais informações

O tratamento taxonômico das ninfeáceas na Flora Brasiliensis foi elaborado pelo botânico alemão Robert Caspary, famoso na área de anatomia vegetal pelas "estrias de Caspary" (diferenciações em algumas células de raízes das plantas).

Vol. IV, Part II, Fasc. 77 Plate 28 (1878-06-01)CRIA - Centro de Referência em Informação Ambiental

Ao todo, Caspary reconheceu 10 espécies, bem como algumas formas e variedades. Todas as espécies foram lindamente ilustradas, como vemos aqui nessa tela.

Victoria amazonica (1851), de Walter Hood FitchFonte original: Wikimedia Commons

Além do gênero Nymphaea, a família Nymphaeaceae está representada no Brasil por duas espécies gigantes do gênero Victoria. Esse gênero foi descrito pelo botânico inglês John Lindley, em 1837.

Nike ou Vitória (26 de Março, 2017), de Steven ZuckerFonte original: flickr

Nike

Conhecendo o gosto de John Lindley pelos nomes das deusas, alguém poderia presumir que ele nomeou essas enormes plantas aquáticas em homenagem à deusa romana Vitória (em grego, Nike; uma filha da ninfa do rio, Styx).

Victoria Queen Of England YoungLIFE Photo Collection

Rainha Vitória

No entanto, o leal botânico inglês escolheu homenagear sua rainha Vitória, que naquele ano de 1837 estava apenas começando o seu reinado. No Brasil, as espécies desse gênero são conhecidas até hoje como "vitória-régia."

Victoria amazonica, Hungria (1905)Fonte original: Wikimedia Commons

Victoria regia ou Victoria amazonica?

De fato, o nome científico de uma das espécies do gênero já foi Victoria regia, mas em 1850 o botânico britânico John Edward Sowerby percebeu que havia um nome mais antigo para ela em outro gênero (Euryale amazonica), e assim fez a mudança correta do nome para Victoria amazonica.

Victoria amazonica, Rotterdam (06 de Setembro, 2015), de Steven LekFonte original: Wikimedia Commons

As enormes folhas flutuantes da Victoria amazonica podem alcançar 2,5 metros de diâmetro e suportar até 40 quilos se forem bem distribuídos em sua superfície. Longe da mitologia grega, essa espécie possui sua própria lenda indígena tupi-guarani.

Lenda da vitória régia, de Autor desconhecidoFonte original: Escola educação

A lenda da vitória-régia

A lenda é sobre uma deusa da lua, Jaci, que transformava as moças mais lindas em estrelas. Uma jovem chamada Naiá viu o reflexo da lua no rio e se afogou tentando alcançá-la. Jaci recompensou seu sacrifício fazendo dela uma estrela na água. E assim teria surgido a vitória-régia.

Nymphaea nalinii, folha fóssilFonte original: Digital Atlas of Ancient Life

Sementes, flores e folhas fósseis de membros extintos da família dos nenúfares foram encontrados na América do Norte, Europa e China. Os vestígios mais antigos têm provavelmente mais de 90 milhões de anos, quase que justificando sua condição de filhas e netas da velha Mãe Terra.

Créditos: história

Pesquisa e redação: Fernando B. Matos (CRIA)
Montagem: Fernando B. Matos (CRIA)
Revisão: Renato De Giovanni (CRIA)
Referências: Flora Brasiliensis (http://florabrasiliensis.cria.org.br/opus); Viagem pelo Brasil (https://www2.senado.leg.br/bdsf/handle/id/573991); Bernhardt (2008). Gods and goddesses in the garden: Greco-Roman mythology and the scientific names of plants. Rutgers University Press, 264 páginas.
Informações adicionais: http://florabrasiliensis.cria.org.br/stories
Agradecimentos: Aos autores das imagens e personagens da história.

*Todos os esforços foram feitos para creditar as imagens, áudios e vídeos e contar corretamente os episódios narrados nas exposições. Caso encontre erros e/ou omissões, favor entrar em contato pelo e-mail contato@cria.org.br

Créditos: todas as mídias
Em alguns casos, é possível que a história em destaque tenha sido criada por terceiros independentes. Portanto, ela pode não representar as visões das instituições, listadas abaixo, que forneceram o conteúdo.