CRIA - Centro de Referência em Informação Ambiental
Fernando B. Matos & Paulo H. Labiak
Lomaridium e Selaginella (28 de junho, 2019), de Fernando B. MatosFonte original: Fernando B. Matos
As samambaias e licófitas
Samambaias e licófitas são plantas vasculares que não produzem sementes. Diferente das plantas com flores, se dispersam por esporos e possuem gametófitos independentes. São linhagens antigas e essenciais para a biodiversidade, ajudando a manter o equilíbrio nos ecossistemas.
Vol. I, Part II, Fasc. 23 Plate 11 (1859-07-15)CRIA - Centro de Referência em Informação Ambiental
Flora Brasiliensis
A Flora Brasiliensis (1840–1906) é uma das mais completas obras botânicas sobre a flora do Brasil. Idealizada e editada por Carl Friedrich Philipp von Martius, contou com 65 autores de diversos países, incluindo os cinco pteridólogos que veremos a seguir.
John Gilbert Baker (1834–1920) nasceu em Yorkshire, Inglaterra. Trabalhou no Royal Botanic Gardens, Kew, onde foi curador do herbário de 1890 a 1899. Na Flora Brasiliensis, revisou Cyatheaceae e Polypodiaceae, que então englobavam quase todas as samambaias, incluindo os xaxins. Além das samambaias, Baker escreveu tratamentos para famílias de plantas com flor, como Asteraceae e Connaraceae. Seu trabalho foi essencial para a sistematização da flora tropical.
Friedrich Adalbert Maximilian Kuhn (1842–1894) nasceu em Berlim, onde estudou botânica com J. Hanstein, H. Karsten e A. Braun. Trabalhou no Real Herbário de Berlim e lecionou por décadas. Na Flora Brasiliensis, descreveu as famílias Isoëtaceae, Marsileaceae e Salviniaceae. Isoëtaceae são licófitas aquáticas de caules globosos e folhas cilíndricas. Marsileaceae e Salviniaceae são samambaias heterosporadas: as primeiras lembram trevos de quatro folhas, e as últimas vivem flutuando em lagos e rios.
Carl August Julius Milde (1824–1871), botânico alemão, nasceu em Breslávia (atual Wrocław, Polônia). Foi responsável pela família Equisetaceae, que inclui as "cavalinhas". Esse grupo de plantas se destaca por seus caules ocos e articulados, folhas reduzidas, estróbilos terminais, e esporos com elatérios higroscópicos, que auxiliam na dispersão. Por muito tempo, as cavalinhas foram consideradas um grupo à parte das samambaias devido à sua morfologia única.
Anton Friedrich Spring (1814–1872) nasceu em Geroldsbach, Baviera. Estudou medicina e botânica na Universidade de Munique sob orientação de Martius. Lecionou fisiologia e anatomia na Universidade de Liège e foi membro da Academia Belga. Na Flora Brasiliensis, descreveu Lycopodiaceae, Selaginellaceae e Psilotaceae, grupos que compartilham algumas semelhanças morfológicas, mas pertencem a linhagens distintas: as duas primeiras são licófitas, enquanto a última é uma samambaia.
Johann Wilhelm Sturm (1808–1865) nasceu em Nuremberg, Baviera. Filho de Jacob Sturm, renomado gravador e entomólogo, estudou botânica após se formar na Escola de Artes de sua cidade natal. Ajudou a ilustrar obras científicas e recebeu um doutorado honorário da Universidade da Pensilvânia. Na Flora Brasiliensis, descreveu Ophioglossaceae e Marattiaceae (samambaias eusporangiadas) e Osmundaceae, Schizaeaceae, Gleicheniaceae e Hymenophyllaceae (leptosporangiadas basais).
Carl Friedrich Philipp von Martius (1794–1868) nasceu em Erlangen, Alemanha. Entre 1817 e 1820, explorou o Brasil em uma expedição científica, coletando milhares de plantas que serviram de base para a Flora Brasiliensis. Embora não tenha descrito samambaias e licófitas diretamente nessa obra, publicou estudos sobre esses grupos na Icones Plantarum Cryptogamicarum (1828–1834), em colaboração com Hugo von Mohl, trazendo descrições e ilustrações detalhadas.
Hugo von Mohl (1805–1872) foi um botânico alemão pioneiro na anatomia vegetal. Embora não tenha participado da Flora Brasiliensis, colaborou com Martius na Icones Plantarum Cryptogamicarum (1828–1834), descrevendo a anatomia das samambaias arbóreas. Ele também foi o primeiro a descrever os cloroplastos (1837) e cunhou o termo "protoplasma" (1846), revolucionando o estudo das células. Seus trabalhos ajudaram a compreender a divisão celular e a estrutura das plantas.
Lycopodium, Selaginella, Brachymenium (1828-1834), de Carl Friedrich Philipp von MartiusFonte original: flickr
Icones Plantarum Cryptogamicarum
Publicada entre 1828 e 1834, essa obra de Martius trouxe ilustrações detalhadas das criptógamas brasileiras, incluindo algas, líquens, musgos, samambaias e licófitas. Foi um marco para a botânica tropical, servindo como referência para os estudos posteriores na Flora Brasiliensis.
Vol. I, Part II, Fasc. 49 Plate 32 (1870-05-01)CRIA - Centro de Referência em Informação Ambiental
O legado dos pteridólogos
O trabalho desses cientistas revelou a riqueza das samambaias e licófitas do Brasil. Suas descrições seguem fundamentais para a pesquisa, conservação e ensino. Sua contribuição à botânica ultrapassa séculos, inspirando novas gerações de pteridólogos ao redor do mundo.
Lastreopsis e Selaginella (28 de junho, 2019), de Fernando B. MatosFonte original: Fernando B. Matos
A evolução do conhecimento
A Flora Brasiliensis reconhecia 575 espécies de samambaias e licófitas para o Brasil. Com o acúmulo de novas coletas e estudos, esse número aumentou para 1.421 espécies, das quais 531 são endêmicas do país. Pesquisas modernas continuam ampliando nosso conhecimento sobre essas plantas fascinantes.
Pesquisa e redação: Fernando B. Matos (CRIA), Paulo H. Labiak (UFPR)
Montagem: Fernando B. Matos (CRIA)
Revisão: Renato De Giovanni (CRIA)
Referências: Flora Brasiliensis, vol. I pars II (http://florabrasiliensis.cria.org.br/opus): Lycopodineae fasc. I (1840), p. 105-134, tab 5-8; Ophioglosseae, Marattiacene, Osmundaceae, Schizaeaceae, Gleicheniaceae, Hymenophylleae fasc. XXIII (1859), p. 137-302, tab. 9-19; Cyatheaceae & Polypodiaceae fasc. XLIX (1870), p. 305-624, tab. 20-70; Equisetaceae fasc. LIX (1872), p. 629--644, tab. 71-77; Isoëtaceae, Marsiliaceae, Salviniaceae fasc. XCII (1884), p. 645-662, tab. 78-82; Icones Plantarum Cryptogamicarum (https://www.biodiversitylibrary.org/bibliography/16100)
Informações adicionais: http://florabrasiliensis.cria.org.br/stories
*Todos os esforços foram feitos para creditar as imagens, áudios e vídeos e contar corretamente os episódios narrados nas exposições. Caso encontre erros e/ou omissões, favor entrar em contato pelo e-mail contato@cria.org.br