CRIA - Centro de Referência em Informação Ambiental

Luiza F. A. de Paula, Núria Manresa, Elisa Marques

A Flora Brasiliensis e o Antropoceno: o que a obra nos conta sobre nossos tempos?

As paisagens retratam os paradoxos que estão na base da ideia ocidental de Natureza. Junto à representação sublime do mundo natural, estão também cenas de degradação ambiental.

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Flora Brasiliensis: Vol. I, Part I, Fasc. unplaced Column 1000CRIA - Centro de Referência em Informação Ambiental

Tabulae Physiognomicae

A Flora Brasiliensis apresenta no primeiro volume as Tabulae Physiognomicae, que é uma seção com 59 pranchas paisagísticas litografadas de diversas  regiões fitogeográficas brasileiras

Flora Brasiliensis: Vol. I, Part I, Fasc. unplaced Plate 61CRIA - Centro de Referência em Informação Ambiental

Registros das paisagens

As pranchas da Flora Brasiliensis deixaram registros de como foram nossos biomas, seus estados de conservação na época, e possibilitam nos dias de hoje a nossa comparação entre passado, presente e até mesmo do futuro. No mapa, os biomas são coloridos na perspectiva de Martius.

Carl Friedrich Philipp von Martius (1794-1868) (12 de dezembro de 2006 (data de carregamento original)), de J. Kuhn segundo MerzFonte original: Hans Wahl, Anton Kippenberg: Goethe and his world, Insel-Verlag, Leipzig 1932 p.204

Carl Friedrich Philipp Von Martius (1794-1868)

O naturalista Martius, editor da Flora Brasiliensis, apesar de registrar inúmeras paisagens prístinas, fez considerações sobre a devastação após a chegada dos colonizadores portugueses. Martius, portanto, já vislumbrava problemas futuros e previa os desafios do Antropoceno.

Vol. I, Part I, Fasc. See Urban Plate 41 (1906)CRIA - Centro de Referência em Informação Ambiental

Antropoceno

Antropoceno é um termo usado por alguns cientistas para descrever o período mais recente na história do Planeta Terra. 

Ainda não há data de início precisa e oficialmente apontada, mas muitos pesquisadores consideram que começa no final do Século XVIII, quando as atividades humanas começaram a  ter um impacto global significativo no clima da Terra e no funcionamento dos seus ecossistemas.

Flora Brasiliensis: Vol. I, Part I, Fasc. See Urban Plate 16 (1906)CRIA - Centro de Referência em Informação Ambiental

Força exploratória

Muitas vezes nos planos de fundo, mas também enquanto protagonista de alguns dos quadros, as cenas de queimadas, as monoculturas e o desmatamento evidenciam a força exploratória do empreendimento colonial. 

Imagens conflituosas

Justapostas, as imagens produzem um contraste entre expressões tanto da abundância como da escassez, da potência como da fragilidade, ora do ser humano, ora da natureza. Admirada ou dominada, trata-se de uma natureza que é sempre externa,  apartada do ser humano. 

Vol. I, Part I, Fasc. See Urban Plate 44 (1906)CRIA - Centro de Referência em Informação Ambiental

Plantações de café

A prancha litografada (1855) por August Brandmayer segundo desenho natural (1836) executado por Johann Steinmann, dá uma boa idéia da constituição das plantações de café na Serra dos Órgãos, no caminho para Teresópolis. 

Ausência de grandes árvores

Atenção para a área desmatada à direita da imagem. Martius já apresentava preocupação quanto à pobreza do solo que, após algumas colheitas, era abandonado e substituído pela capoeira caracterizada pela ausência das  "grandes árvores originais de lento crescimento".

Flora Brasiliensis: Vol. I, Part I, Fasc. See Urban Plate 21 (1906)CRIA - Centro de Referência em Informação Ambiental

Queimadas

A prática das queimadas foi também retratada na Flora Brasiliensis. Martius fez questão de abordar sobre os agravos provocados ao meio ambiente pelas frequentes queimadas, características do manejo brasileiro quando do desmatamento da vegetação natural para plantio.

Flora Brasiliensis: Vol. I, Part I, Fasc. See Urban Plate 55, 1906, Da coleção de: CRIA - Centro de Referência em Informação Ambiental
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Vol. I, Part I, Fasc. See Urban Plate 45, 1906, Da coleção de: CRIA - Centro de Referência em Informação Ambiental
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Em relação ao desmatamento para o cultivo de espécies exóticas (ex. bananas e agaves, apresentadas nas imagens), no livro Viagem pelo Brasil, Martius escreveu: "pela atividade civilizatória deste país em vigoroso progresso, a natureza está sendo transformada em muitos aspectos”. Ele estimulou que se iniciassem, sem demora, mais investigações sobre a flora e fauna dos biomas, “antes que a mão destruidora e transformadora do homem tenha obstruído ou desviado o curso da natureza”.

Flora Brasiliensis: Vol. I, Part I, Fasc. See Urban Plate 19, 1906, Da coleção de: CRIA - Centro de Referência em Informação Ambiental
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Retrato da cidade do Rio de Janeiro, Stefan Porembski, Da coleção de: CRIA - Centro de Referência em Informação Ambiental
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No ímpeto de construir um mundo único e cada vez mais novo, nos esquecemos, ou, talvez, tenhamos desistido de verdadeiramente habitar o planeta. O foco está em projetar, produzir, planificar, terraplanar, edificar, lotear, urbanizar. De agora em diante, como considerar para além dos interesses humanos? Como imaginar formas de cohabitação que incluam toda uma rede de alianças, hoje relegada à função de entorno? 

Vol. I, Part I, Fasc. See Urban Plate 18 (1906)CRIA - Centro de Referência em Informação Ambiental

Técnicas em simbiose

Na contramão da lógica exploratória, sabemos hoje, através das pesquisas arqueológicas, que em várias regiões fitogeográficas brasileiras havia ambientes cultivados pelos habitantes originários através de sofisticadas técnicas em simbiose com outros seres.

Flora Brasiliensis: Vol. I, Part I, Fasc. See Urban Plate 35 (1906)CRIA - Centro de Referência em Informação Ambiental

Como habitar, estar, cultivar e criar o mundo?

Em meio a um mundo que estimula o imediatismo, a possibilidade da pesquisa alimenta processos de decantação e reflexão em profundidade. É uma abertura à diferença, que pode fortalecer a multiplicidade de formas de existências (resistências).

Flora Brasiliensis: Vol. I, Part I, Fasc. See Urban Plate 36 (1906)CRIA - Centro de Referência em Informação Ambiental

O legado

A Flora Brasiliensis nos deixou um legado para refletirmos sobre o aprendizado com experiências outras de relações entre humanos e não humanos, que constituem-se na forma de redes complexas. Para onde estas pranchas nos levam a extrapolar?

Profundidade, margens e extracampo

Na profundidade, nas margens, ou ainda que no extracampo dessas imagens, será que podem ser evocadas outras formas de relações entre humanos e não-humanos, outros modos de viver e de conceber a vida?

Flora Brasiliensis: Vol. I, Part I, Fasc. See Urban Plate 9 (1906)CRIA - Centro de Referência em Informação Ambiental

Flora Brasiliensis: rede colaborativa

O mesmo espírito colaborativo que produziu a Flora Brasiliensis pode nos inspirar a criar redes de solidariedade, onde política, economia, cultura e ecologia caminhem juntas, estabelecendo outras conexões, mais plurais, que revelem formas de ficar (não de sair) do mundo.

Flora Brasiliensis: rede colaborativa

Quais pistas as imagens da Flora brasilienses nos dão sobre o modo de viver, cuidar e produzir biodiversidade antes da colônia? Como estas imagens podem nos ajudar a imaginar possibilidades de produzir, em companhia, um espaço biodiverso e saudável para humanos e não-humanos?

Créditos: história

Pesquisa e redação: Luiza F. A. de Paula (Universidade Federal de Minas Gerais / CRIA), Núria Manresa (Universidade Federal de Minas Gerais ), Elisa Marques (Universidade Federal de Minas Gerais )
Montagem: Luiza F. A. de Paula
Revisão: João Renato Stehmann (Universidade Federal de Minas Gerais ), Renato De Giovanni (CRIA)
Referências: Flora Brasiliensis (http://florabrasiliensis.cria.org.br/opus), Viagem pelo Brasil (https://www2.senado.leg.br/bdsf/handle/id/573991)
Informações adicionais: http://florabrasiliensis.cria.org.br/stories
Agradecimentos: Todos os autores das fotos e personagens da história

*Todos os esforços foram feitos para creditar as imagens, áudios e vídeos e contar corretamente os episódios narrados nas exposições. Caso encontre erros e/ou omissões, favor entrar em contato pelo e-mail contato@cria.org.br

Créditos: todas as mídias
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