Martius na Amazônia

Um passeio botânico pela primeira litografia da Flora Brasiliensis

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Vol. I, Part I, Fasc. See Urban Plate 1 (1906)CRIA - Centro de Referência em Informação Ambiental

Flora brasiliensis

A Flora Brasiliensis é um marco da botânica mundial. Embora iniciada em 1840, seu volume 1 foi publicado por último, em 1906, com 59 gravuras de paisagens brasileiras. Nesta história, embarcaremos em um “passeio botânico” por uma delas, destacando suas plantas.

Mata de igapó

A figura de abertura da Flora Brasiliensis  ilustra uma mata de igapó às margens do rio Amazonas, nas proximidades da cidade de Santarém, no Pará. Inundadas durante até 10 meses no ano, essas matas abrigam uma amostra valiosa da biodiversidade amazônica.

Nas margens dos rios, a exuberante "canarana" (Echinochloa polystachya) cresce em abundância. Durante as cheias, desprende-se do solo e forma impressionantes ilhas flutuantes de capim, criando um cenário dinâmico na paisagem amazônica.

Nesse mesmo ambiente, destaca-se a "aninga" (Montrichardia arborescens), com seus caules claros e marcados pelas cicatrizes das folhas antigas. Seus troncos chegam a 3 metros de altura e sustentam grandes folhas sagitadas, criando uma presença marcante na paisagem.

Próximo ao lodo, em um local desprovido de vegetação, vemos algumas "espigas-de-sangue" (Helosis cayenensis) emergindo das raízes de outras plantas. Trata-se de uma planta parasita pequena e sem clorofila, que mais se parece com um fungo avermelhado.

O "ingá" ou "ingazeiro" (Inga sp.) pode ser facilmente reconhecido por suas folhas compostas e aladas e por suas vagens pendentes, com sementes de polpa branca, adocicada e comestível.

Tanto a "embaúba" (Cecropia latiloba), com suas grandes folhas palmadas, quanto o "pau-formiga" (Triplaris americana), com suas floradas vermelhas exuberantes, possuem troncos ocos que abrigam formigas, estabelecendo uma curiosa relação de simbiose.

Ao fundo, sobressaindo-se às copas das outras árvores, vemos algumas graciosas palmeiras de "açaí" (Euterpe oleracea) e "jauari" (Astrocaryum jauari), ambas descritas primeiramente por Martius, como resultado de sua visita ao Brasil.

O "cacaueiro" (Theobroma cacao) destaca-se por seus grandes frutos caulinares. Seu nome científico significa "alimento dos deuses" e remete aos astecas, que a consideravam uma árvore sagrada. Suas sementes são a matéria-prima para o chocolate.

Ao lado direito e partindo da base desse cacaueiro, vemos os ramos longos e complexos do cipó "salsaparrilha" (Smilax syphilitica). Suas folhas e frutos são usados como tempero na alimentação, enquanto suas raízes apresentam importantes propriedades medicinais.

Uma das flores mais exuberantes da região são as da "munguba" (Pachira aquatica), também conhecida como "castanheira-da-água" ou "mamorana". São flores perfumadas e enormes, com cerca de 30 cm de diâmetro e peças florais variando do amarelo ao vermelho.

Figueiras (Ficus gomelleira) imensas adornam as margens do rio. Seus frutos são fonte de alimento para a fauna e seus galhos abrigam uma enorme variedade de epífitas, como antúrios, bromélias, orquídeas e samambaias.

Ao redor da figueira vemos os cipós de numerosas espécies, dentre as quais a "escada-de-jabuti" (Schnella outimouta) se destaca por suas formas incríveis.

A sombra das árvores que crescem nas margens escurecem alguns dos recantos mais tranquilos do rio, onde as folhas peltadas e flutuantes das "ninféias" (Nymphaea spp.) são abundantes.

A previsibilidade do ciclo anual de chuvas na Amazônia permitiu que animais e plantas se adaptassem às matas de igapó. No entanto, mudanças climáticas e atividades humanas, como desmatamento, queimadas, mineração e construção de hidrelétricas, representam ameaças crescentes.

Créditos: história

Pesquisa e redação: Fernando B. Matos (CRIA)
Montagem: Fernando B. Matos (CRIA)
Revisão: Renato De Giovanni (CRIA)
Referências: Flora Brasiliensis (http://florabrasiliensis.cria.org.br/opus); Viagem pelo Brasil (https://www2.senado.leg.br/bdsf/handle/id/573991)
Informações adicionais: http://florabrasiliensis.cria.org.br/stories
Agradecimentos: Esta história foi baseada no texto explicativo que acompanha a litografia n. 1 da Flora Brasiliensis (Martius 1906: 1-2). Agradeço ao Dr. Pedro Lage Viana (INMA) pelo apoio na identificação da canarana.

*Todos os esforços foram feitos para creditar as imagens, áudios e vídeos e contar corretamente os episódios narrados nas exposições. Caso encontre erros e/ou omissões, favor entrar em contato pelo e-mail contato@cria.org.br

Créditos: todas as mídias
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