CRIA - Centro de Referência em Informação Ambiental
Luiza F. A. de Paula & Peggy Fiedler
Mapa das províncias florísticas do Brasil (1858), de Carl Friedrich Philipp von MartiusFonte original: Wikimedia Commons
Províncias botânicas
Durante sua viagem pelo Brasil (1817-1820), Martius mapeou as diferentes regiões que compõem hoje parte do que chamamos de biomas, dividindo o país em cinco áreas de acordo com a vegetação. No mapa, essas áreas estão apresentadas em diferentes cores.
Caatinga
Vindo de regiões frias e temperadas, foi na Caatinga, de clima semi-árido, que eles se depararam com uma vegetação muito diferente do que estavam acostumados. No mapa, essa região no nordeste do Brasil está representada pela cor rosa.
Ninfas gregas
Esses cinco domínios florísticos foram associados aos nomes de ninfas gregas (saiba mais):
- Dryades: Ninfa das florestas;
- Oreades: Ninfa dos campos de caça;
- Napaea: Ninfa das ravinas;
- Nayades: Ninfa das águas;
- Hamadryades: Ninfa que morre e renasce.
Hamadryades
Hamadryades, ninfa que morre e renasce, escolhida por Martius para reger a Caatinga, estaria também representando a sazonalidade desse bioma. Na mitologia grega, as hamadríades são ninfas que nascem com as árvores e com as quais partilham o destino, devendo protegê-las.
Ao ver a Caatinga, Martius descreveu:
"(...) durante os meses secos, as árvores baixas ficam sem folhas e sombra e, entre seus tênues ramos, o sol torra o caminheiro que procura uma sombra inutilmente. Em decorrência disso, o povo tupinambá chamou-as pelo nome de 'caa-tinga' (...)"
Vegetação da Caatinga durante a estação seca (2019), de Luiza PaulaCRIA - Centro de Referência em Informação Ambiental
Significado do nome
"O nome “Caatinga” possui origem tupi-guarani e significa “floresta branca”. Essa denominação representa as características da vegetação desse ecossistema, cujas folhas caem no período da seca. O clima é semi-árido e as plantas precisam desenvolver adaptações a esses ambientes.
Vol. I, Part I, Fasc. See Urban Plate 10 (1906)CRIA - Centro de Referência em Informação Ambiental
Quais os aromas da Caatinga?
Por ser uma vegetação adaptada às condições xéricas, ou seja, de pouca água e muita luminosidade, muitos pensam que a Caatinga é pobre em espécies. Contudo, esse bioma é altamente biodiverso e surpreende por suas plantas aromáticas. Teriam os viajantes sentido esses aromas?
Imburana
Um passeio por essa bela prancha da Flora Brasiliensis, representando a Caatinga, nos leva à imburana (Commiphora leptophloeos), da família Burseraceae. Além do uso madeireiro e ornamental, a resina aromática do tronco tem emprego na fabricação de vernizes.
Martius escreveu sobra a imburana: "Ela é notável por causa da resina que contém, totalmente aromatizada, e por causa do princípio incitante, pode ser mostrada com seu caule quase claro, fraco, transparente (...)". A casca da imburana é lisa e se desprende em lâminas delgadas, revolutas e irregulares.
Os frutos maduros são comestíveis e têm polpa agridoce. As sementes produzem óleo utilizado na medicina popular, por exemplo, na confecção de xaropes e cicatrizantes.
Vol. I, Part I, Fasc. See Urban Plate 10 (1906)CRIA - Centro de Referência em Informação Ambiental
Outros aromas da Caatinga
O Cereus jamacaru, cacto de alto porte na margem esquerda da imagem, é popularmente conhecido por mandacaru. É uma espécie típica da Caatinga, adaptada às condições adversas desse bioma.
Suas flores se abrem à noite, e são polinizadas por morcegos. Para atrair esses animais, suas flores exalam odor de fermentação ou de frutas, ou cheiro azedo normalmente com presença de enxofre. Por esse odor peculiar, essa fragrância não é utilizada para perfumes humanos, mas parece agradar os morcegos.
Lírio-da-Caatinga
Outra planta aromática e típica da Caatinga, mas que passou despercebida por Spix e Martius, é o Lírio-da-Caatinta (Griffinia gardneriana). Essa espécie não foi registrada na Flora Brasiliensis, sendo descrita apenas no século XX.
Uma explosão de perfume na Caatinga
Griffinia gardneriana, da família Amaryllidaceae, é uma espécie ameaçada de extinção, odorífera e ornamental. Possui floração massiva que ocorre por apenas uma ou duas noites, emitindo um odor marcante na noite da Caatinga.
Suas flores brancas, com aroma adocicado, abrem à noite e são polinizadas por mariposas. A mariposa Agrius cingulata (Sphingidae) já foi registrada como polinizadora de Griffinia gardneriana.
O perfume da Caatinga
Será que os naturalistas, durante sua viagem, sentiram o perfume da Caatinga?
Pesquisa e redação: Luiza F. A. de Paula (UFMG/CRIA) & Peggy Fiedler (The Red List Project)
Montagem: Luiza F. A. de Paula (UFMG/CRIA)
Revisão: João Renato Stehmann (UFMG), Renato De Giovanni (CRIA)
Referências: Flora Brasiliensis (http://florabrasiliensis.cria.org.br/opus), Viagem pelo Brasil (https://www2.senado.leg.br/bdsf/handle/id/573991), The Red List Project (https://www.theredlistproject.org/)
Informações adicionais: http://florabrasiliensis.cria.org.br/stories
Agradecimentos: Todos os autores das fotos, personagens da história e Antônio Campos-Rocha
*Todos os esforços foram feitos para creditar as imagens, áudios e vídeos e contar corretamente os episódios narrados nas exposições. Caso encontre erros e/ou omissões, favor entrar em contato pelo e-mail contato@cria.org.br