CRIA - Centro de Referência em Informação Ambiental

Luiza F. A. de Paula & Peggy Fiedler

Os aromas da Caatinga

Na Caatinga, quantas fragrâncias diferentes devem ter experimentado os naturalistas alemães Spix e Martius durante sua viagem pelo Brasil ?

Ler

Mapa das províncias florísticas do Brasil (1858), de Carl Friedrich Philipp von MartiusFonte original: Wikimedia Commons

Províncias botânicas

Durante sua viagem pelo Brasil (1817-1820), Martius mapeou as diferentes regiões que compõem hoje parte do que chamamos de biomas, dividindo o país em cinco áreas de acordo com a vegetação. No mapa, essas áreas estão apresentadas em diferentes cores.

Caatinga

Vindo de regiões frias e temperadas, foi na Caatinga, de clima semi-árido, que eles se depararam com uma vegetação muito diferente do que estavam acostumados. No mapa, essa região no nordeste do Brasil está representada pela cor rosa.

Ninfas gregas

Esses cinco domínios florísticos foram associados aos nomes de ninfas gregas (saiba mais): 
- Dryades: Ninfa das florestas; 
- Oreades: Ninfa dos campos de caça; 
- Napaea: Ninfa das ravinas;
- Nayades: Ninfa das águas; 
- Hamadryades: Ninfa que morre e renasce. 

Waterhouse, JW - A Hamadryad (1895) (1895), de John William WaterhouseFonte original: Wikimedia Commons

Hamadryades

Hamadryades, ninfa que morre e renasce, escolhida por Martius para reger a Caatinga, estaria também representando a sazonalidade desse bioma. Na mitologia grega, as hamadríades são ninfas que nascem com as árvores e com as quais partilham o destino, devendo protegê-las.

Carl Friedrich Philipp von Martius (1794-1868) (12 de dezembro de 2006 (data de carregamento original)), de J. Kuhn segundo MerzFonte original: Hans Wahl, Anton Kippenberg: Goethe and his world, Insel-Verlag, Leipzig 1932 p.204

Ao ver a Caatinga, Martius descreveu:

"(...) durante os meses secos, as árvores baixas ficam sem folhas e sombra e, entre seus tênues ramos, o sol torra o caminheiro que procura uma sombra inutilmente. Em decorrência disso, o povo tupinambá chamou-as pelo nome de 'caa-tinga' (...)"

Vegetação da Caatinga durante a estação seca (2019), de Luiza PaulaCRIA - Centro de Referência em Informação Ambiental

Significado do nome

"O nome “Caatinga” possui origem tupi-guarani e significa “floresta branca”. Essa denominação representa as características da vegetação desse ecossistema, cujas folhas caem no período da seca. O clima é semi-árido e as plantas precisam desenvolver adaptações a esses ambientes.

Vol. I, Part I, Fasc. See Urban Plate 10 (1906)CRIA - Centro de Referência em Informação Ambiental

Quais os aromas da Caatinga?

Por ser uma vegetação adaptada às condições xéricas, ou seja, de pouca água e muita luminosidade, muitos pensam que a Caatinga é pobre em espécies. Contudo, esse bioma é altamente biodiverso e surpreende por suas plantas aromáticas. Teriam os viajantes sentido esses aromas?

Imburana

Um passeio por essa bela prancha da Flora Brasiliensis, representando a Caatinga, nos leva à imburana (Commiphora leptophloeos), da família Burseraceae.  Além do uso madeireiro e ornamental, a resina aromática do tronco tem emprego na fabricação de vernizes.

Imburana, Gustavo Sandres, 2024, Fonte original: iNaturalist
,
Tronco de imburana, Mateus Freijo, 2022, Fonte original: iNaturalist
Mostrar menosMais informações

Martius escreveu sobra a imburana: "Ela é notável por causa da resina que contém, totalmente aromatizada, e por causa do princípio incitante, pode ser mostrada com seu caule quase claro, fraco, transparente (...)". A casca da imburana é lisa e se desprende em lâminas delgadas, revolutas e irregulares.

Frutos e folhas de imburana, Geovane Siqueira, 2022/2022, Fonte original: iNaturalist
,
Fruto e semente de imburana, Célio Moura Neto, 2021, Fonte original: iNaturalist
Mostrar menosMais informações

Os frutos maduros são comestíveis e têm polpa agridoce. As sementes produzem óleo utilizado na medicina popular, por exemplo, na confecção de xaropes e cicatrizantes.

Vol. I, Part I, Fasc. See Urban Plate 10 (1906)CRIA - Centro de Referência em Informação Ambiental

Outros aromas da Caatinga

O Cereus jamacaru, cacto de alto porte na margem esquerda da imagem, é popularmente conhecido por mandacaru. É uma espécie típica da Caatinga, adaptada às condições adversas desse bioma.

Cereus jamacaru (mandacaru) crescendo na Caatinga, Luiza Paula, 2019, Da coleção de: CRIA - Centro de Referência em Informação Ambiental
,
Flores de Cereus jamacaru (mandacaru), Luiza Paula, 2019, Da coleção de: CRIA - Centro de Referência em Informação Ambiental
Mostrar menosMais informações

Suas flores se abrem à noite, e são polinizadas por morcegos. Para atrair esses animais, suas flores exalam odor de fermentação ou de frutas, ou cheiro azedo normalmente com presença de enxofre. Por esse odor peculiar, essa fragrância não é utilizada para perfumes humanos, mas parece agradar os morcegos.

Flor de Griffinia gardneriana (lirio-da-caatinga) (2015), de Gustavo ShimizuCRIA - Centro de Referência em Informação Ambiental

Lírio-da-Caatinga

Outra planta aromática e típica da Caatinga, mas que passou despercebida por Spix e Martius, é o Lírio-da-Caatinta (Griffinia gardneriana). Essa espécie não foi registrada na Flora Brasiliensis, sendo descrita apenas no século XX.

Inflorescência de Griffinia gardneriana (lirio-da-caatinga) (2015), de Gustavo ShimizuCRIA - Centro de Referência em Informação Ambiental

Uma explosão de perfume na Caatinga

Griffinia gardneriana, da família Amaryllidaceae, é uma espécie ameaçada de extinção, odorífera e ornamental. Possui floração massiva que ocorre por apenas uma ou duas noites, emitindo um odor marcante na noite da Caatinga.

Detalhe da flor de Griffinia gardneriana (lirio-da-caatinga), Luiza Paula, 2019, Da coleção de: CRIA - Centro de Referência em Informação Ambiental
,
A mariposa Agrius cingulata (Sphingidae), Charles J. Sharp, 2019-05-12, Fonte original: Wikimedia Commons
Mostrar menosMais informações

Suas flores brancas, com aroma adocicado, abrem à noite e são polinizadas por mariposas. A mariposa Agrius cingulata (Sphingidae) já foi registrada como polinizadora de Griffinia gardneriana.

O perfume da Caatinga

Será que os naturalistas, durante sua viagem, sentiram o perfume da Caatinga?

Créditos: história

Pesquisa e redação: Luiza F. A. de Paula (UFMG/CRIA) & Peggy Fiedler (The Red List Project) 
Montagem: Luiza F. A. de Paula (UFMG/CRIA)
Revisão: João Renato Stehmann (UFMG), Renato De Giovanni (CRIA)
Referências: Flora Brasiliensis (http://florabrasiliensis.cria.org.br/opus), Viagem pelo Brasil (https://www2.senado.leg.br/bdsf/handle/id/573991), The Red List Project (https://www.theredlistproject.org/)
Informações adicionais: http://florabrasiliensis.cria.org.br/stories
Agradecimentos: Todos os autores das fotos, personagens da história e Antônio Campos-Rocha

*Todos os esforços foram feitos para creditar as imagens, áudios e vídeos e contar corretamente os episódios narrados nas exposições. Caso encontre erros e/ou omissões, favor entrar em contato pelo e-mail contato@cria.org.br

Créditos: todas as mídias
Em alguns casos, é possível que a história em destaque tenha sido criada por terceiros independentes. Portanto, ela pode não representar as visões das instituições, listadas abaixo, que forneceram o conteúdo.