CRIA - Centro de Referência em Informação Ambiental
Luiza F. A. de Paula & Fernanda Antunes Carvalho
Ilustração do mamoeiro (Carica papaya) (1897), de Franz Eugen Köhler, Köhler's Medizinal-PflanzenFonte original: Wikimedia Commons
A família do mamão
Caricaceae é uma pequena família de plantas com flores. O mamão, Carica papaya, é o representante mais popular da família, amplamente cultivado nas regiões tropicais em todo mundo.
Além dos frutos: a papaína
O mamão é apreciado não apenas por seus frutos deliciosos e nutritivos, mas também por conter a enzima papaína, utilizada em medicamentos, ou como amaciante de carnes, de tecidos, de seda e de couro, e também usada na produção de cerveja.
Origem do mamão
O mamão se originou na região da Mesoamérica. Seu cultivo provavelmente se iniciou há vários milênios próximo a seu local de origem, mas só foi disseminado para outros continentes no século XVI por navegantes portugueses e espanhóis.
Um fato curioso é que o mamoeiro pode ser classificado como macho, fêmea ou hermafrodita, de acordo com suas flores. As flores da planta macho estão em inflorescências penduladas e têm estames, onde é produzido o pólen. Plantas macho não geram frutos. As plantas fêmeas produzem flores isoladas que nascem diretamente do caule e têm pistilos, estruturas que guardam os óvulos, que após fecundados pelo pólen das plantas macho ou hermafroditas, tornam-se sementes e o ovário desenvolve-se em fruto.
Mamoeiro hermafrodita
A planta hermafrodita tem flores femininas e flores masculinas em uma inflorescência pendulada. Pode ocorrer auto-fecundação ou recebimento de pólen de outras plantas macho, o que leva à formação dos frutos, conhecidos como mamão-de-corda, já que ficam pendurados em hastes.
Vol. XIII, Part III, Fasc. 106 Column 170 - 171 (1889-08-15)CRIA - Centro de Referência em Informação Ambiental
A família do mamão na Flora Brasiliensis
A família Caricaceae, além do mamão, tem outras espécies nativas com frutos saborosos. Por exemplo, a Flora Brasiliensis, obra resultante da viagem dos naturalistas alemães Spix e Martius pelo Brasil (1817-1820), já compilava várias espécies de Caricaceae.
Vol. XIII, Part III, Fasc. 106 Plate 49 (1889-08-15)CRIA - Centro de Referência em Informação Ambiental
"Carica papaya" na Flora Brasiliensis
Prancha ilustrada da espécie do mamão, Carica papaya, na Flora Brasiliensis, destacando detalhes de flores femininas, flores masculinas e frutos.
Flora Brasiliensis: Vol. I, Part I, Fasc. See Urban Plate 26 (1906)CRIA - Centro de Referência em Informação Ambiental
O mamão na paisagem carioca
O mamão já era uma espécie cultivada na época da viagem de Spix e Martius, e com certeza chamava a atenção dos viajantes. Ele foi representado do lado esquerdo nessa paisagem do Rio de Janeiro, litografia que foi baseada na obra original do artista Thomas Ender.
Espécies de Jacaratia, outro gênero da família Caricaceae, também foram ilustradas na Flora Brasiliensis.
O gênero Jacaratia se destaca pelos seus saborosos frutos. O jaracatiá, nome popular, é originário do Tupi-Guarani – iaracatia – que significa “árvore semelhante ao mamoeiro”. Por exemplo, a espécie Jacaratia spinosa é amplamente distribuída por áreas florestais no Brasil. Seus frutos têm coloração amarelo-ouro quando maduros, com látex. Sua polpa tem sabor doce e cor variando de avermelhada a alaranjada, suculenta, comestível, com numerosas sementes.
Outra espécie pouco conhecida é o mamãozinho-de-veado (Jacaratia corumbensis), assim chamado por ser consumido por veados; ocorre na Caatinga, bioma de vegetação semi-árida dominante no nordeste do Brasil. Essa espécie possui uma batata que armazena água. Diferentes literaturas descrevem o uso da batata para confecção de doces caseiros, utilizados na alimentação das famílias rurais, e que são importante fonte nutricional principalmente durante os períodos de seca do Nordeste brasileiro.
Mamoeiros, de Revista Natureza - Editora EuropaFonte original: https://revistanatureza.com.br/curioso-mamao/
Domesticação
A domesticação do mamoeiro provavelmente se iniciou há alguns milênios na Península de Yucatán, que separa o Golfo do México do Mar do Caribe. A domesticação é um processo conduzido pelo homem visando adaptar plantas e animais às suas necessidades, e se iniciou com a agricultura.
Modificações morfológicas e fisiológicas
Plantas domesticadas são geneticamente distintas de seus progenitores selvagens e apresentam uma série de modificações morfológicas e fisiológicas, como aumento do tamanho de frutos e sementes, melhoramento do sabor e redução de substâncias tóxicas.
Baixa popularidade
Várias plantas nativas e comestíveis não ganham repercussão em larga escala, o que pode estar relacionado a questões culturais, históricas e de manejo. Não são claros os motivos para a baixa popularidade dos parentes do mamão, com saborosos frutos e batatas, como os jacaratiás.
Frutos de jacaratiá, de Gustavo GiaconFonte original: https://ciprest.blogspot.com/2017/03/jacaratia-ou-mamaozinho-do-campo.html
Em busca dos saberes tradicionais
Enquanto o mamão foi por milênios domesticado e difundido, seus parentes ficaram, em sua maioria, apenas localmente conhecidos. Não estaria na hora de olharmos melhor para eles, pensando em um cultivo conjunto com comunidades locais, baseado em seus conhecimentos tradicionais?
Pesquisa e redação: Luiza F. A. de Paula (UFMG/CRIA) & Fernanda Antunes Carvalho (UFMG)
Montagem: Luiza F. A. de Paula (UFMG/CRIA)
Revisão: Fernando B. Matos (CRIA), Renato De Giovanni (CRIA)
Referências: Flora Brasiliensis (http://florabrasiliensis.cria.org.br/opus); Viagem pelo Brasil (https://www2.senado.leg.br/bdsf/handle/id/573991)
Informações adicionais: http://florabrasiliensis.cria.org.br/stories
Agradecimentos: Todos os autores das imagens e personagens da história.
*Todos os esforços foram feitos para creditar as imagens, áudios e vídeos e contar corretamente os episódios narrados nas exposições. Caso encontre erros e/ou omissões, favor entrar em contato pelo e-mail contato@cria.org.br