CRIA - Centro de Referência em Informação Ambiental
Renato Goldenberg & Fernando B. Matos
Reise in Brasilien, página título (1823), de Johann Baptist von Spix, Carl Friedrich Philipp von MartiusFonte original: Wikimedia Commons
Em seu livro “Viagem pelo Brasil”, ele descreveu esta associação entre formigas e plantas assim: “Muito curiosos são os hábitos de várias espécies de formigas que vivem em plantas da família das Melastomatáceas. [...]"
Miconia macrosperma (= Tococa macrosperma) (11 de outubro, 2011), de Renato GoldenbergCRIA - Centro de Referência em Informação Ambiental
"[...] As folhas do gênero Maieta trazem na sua parte inferior uma ampola oblonga de dois compartimentos, e os pecíolos do gênero Tococa são inchados, formando cavidades semelhantes; dentro delas vivem numerosas sociedades de formigas vermelhas pequenas que mordem furiosamente."
Miconia macrosperma (= Tococa macrosperma) (11 de outubro, 2011), de Renato GoldenbergCRIA - Centro de Referência em Informação Ambiental
Essas estruturas inusitadas, como descritas por Martius, são como que balões na base das folhas, em cujo espaço interno habitam formigas.
A uma primeira vista, estas estruturas podem não ser fáceis de serem vistas, assim como não são aparentes as formigas Mas elas estão lá... Vejam essa estrutura meio rugosa acima do fruto de um azul quase preto, que é consumido por aves.
Miconia macrosperma (= Tococa macrosperma) (11 de outubro, 2011), de Renato GoldenbergCRIA - Centro de Referência em Informação Ambiental
Quando viramos a planta para ver a face inferior das folhas, estes balões ficam mais visíveis.
Miconia macrosperma (= Tococa macrosperma) (11 de outubro, 2011), de Renato GoldenbergCRIA - Centro de Referência em Informação Ambiental
Outra coisa acontece quando viramos a planta: a movimentação perturba as formigas, que saem dos seus formigueiros para defender a planta de um possível herbívoro.
As formigas saem pela porta do formigueiro, que fica justamente na confluência das nervuras. A entrada/saída fica somente na face inferior das folhas.
A planta mostrada nestas fotos foi descrita por Martius em 1832, antes de iniciada a Flora Brasiliensis. Chama-se Miconia macrosperma.
O encontro ou um esbarrão com essa planta pode ser muito doloroso... Isso pode ser benéfico para a planta: em troca de fornecer abrigo para as formigas, elas ganham um sistema de proteção super eficiente contra herbívoros.
Martius viu outras espécies com estruturas muito parecidas. Todas pertencentes à família Melastomataceae. Nesta família, a associação com formigas é muito comum, mas não acontece em todas as espécies.
Tococa formicaria, figura (1832), de Carl Friedrich Philipp von MartiusFonte original: flickr
Estas estruturas foram detalhadas com uma precisão impressionante, considerando que essa obra foi publicada em 1832.
Miconia tococa (= Tococa guianensis, = Tococa formicaria) (13 de outubro, 2011), de Renato GoldenbergCRIA - Centro de Referência em Informação Ambiental
Como tudo em botânica, estas estruturas tem um nome. São chamadas de “formicários”.
Miconia tococa (= Tococa guianensis, = Tococa formicaria) (13 de outubro, 2011), de Fabián MichelangeliCRIA - Centro de Referência em Informação Ambiental
Os “formicários” são verdadeiros formigueiros, onde as formigas habitam, reproduzem-se, e criam suas larvas.
Esta Melastomataceae pertence a uma espécie recém-descrita (Miconia valenzuelana, 2020), a partir de plantas coletadas no Peru. Neste caso, não é a folha, mas o caule que é oco. As formigas fazem um furo para entrada e, lá dentro, a planta produz corpos de alimentação.
Não são apenas as Melastomataceae que possuem essa associação com formigas. Nas Boraginaceae, por exemplo, diversas espécies de Cordia também apresentam formicários.
Miconia sp. (15 de julho, 2017), de Renato GoldenbergCRIA - Centro de Referência em Informação Ambiental
Todo visitante da Amazônia percebe rapidamente como os grandes animais são escassos e como os insetos são abundantes — especialmente formigas, abelhas, vespas e mosquitos. Martius foi um dos primeiros cientistas a documentar as interações ecológicas entre plantas e formigas.
Pesquisa e redação: Renato Goldenberg (UFPR) & Fernando B. Matos (CRIA)
Montagem: Fernando B. Matos (CRIA)
Revisão: Renato De Giovanni (CRIA)
Referências: Flora Brasiliensis (http://florabrasiliensis.cria.org.br/opus); Viagem pelo Brasil (https://www2.senado.leg.br/bdsf/handle/id/573991); Nova genera et species plantarum, vol. 3 (https://www.biodiversitylibrary.org/page/744405).
Informações adicionais: http://florabrasiliensis.cria.org.br/stories
Agradecimentos: Agradecimentos especiais aos Drs. Axel Mithöfer (Max Planck Institute for Chemical Ecology) e Fabian Michelangeli (NYBG), pela permissão para uso de seus vídeos e fotos.
*Todos os esforços foram feitos para creditar as imagens, áudios e vídeos e contar corretamente os episódios narrados nas exposições. Caso encontre erros e/ou omissões, favor entrar em contato pelo e-mail contato@cria.org.br