CRIA - Centro de Referência em Informação Ambiental
Luiza F. A. de Paula
O significado do nome
O nome científico do cacaueiro, Theobroma cacao, foi atribuído pelo famoso naturalista Carl Lineu (1707-1778). O nome significa alimento divino (do grego theós = deus; brôma = alimento), em referência aos astecas, que consideravam o caucaueiro uma planta sagrada.
Martius e o cacaueiro
O cacau chegou à Europa no início do século XVI, trazido pelos conquistadores espanhóis de suas viagens às Américas. Contudo, detalhes dessa planta no Brasil, e especialmente na Amazônia, foram registrados pelo naturalista Martius durante sua viagem pelo país (1817-1820).
Vol. I, Part I, Fasc. See Urban Plate 1 (1906)CRIA - Centro de Referência em Informação Ambiental
O cacaueiro em seu ambiente natural
Na Flora Brasiliensis, elaborada por Martius, foram feitas litografias de paisagens do Brasil. Em sua viagem pelo Rio Negro, na Amazônia, Martius registrou um ambiente típico do cacaueiro: as matas de igapó.
O cacaueiro em seu ambiente natural
No livro Viagem pelo Brasil, Martius escreveu: "A essas matas chamam-se, no Brasil, alagadiços, ou, na língua geral, gapó. É terreno entre todos apropriado para o cacaueiro do qual avistei alguns troncos silvestres aqui, e outros num cacaual plantado em fileiras bem juntas."
O cacaueiro em seu ambiente natural
"Esta árvore não chega a grande altura e não estende muito a copa, pois dá os seus pesados frutos só no tronco e nos galhos principais."
[Atenção na imagem para o cacaueiro com seus frutos.]
Vol. XII, Part III, Fasc. 96 Plate 16 (1886-03-01)CRIA - Centro de Referência em Informação Ambiental
Ilustrações
Na compilação da obra Flora Brasiliensis, Martius adicionou uma belíssima prancha com detalhes das flores, frutos e folhas do cacaueiro.
Flores e frutos
O cacaueiro apresenta um tipo de floração e frutificação pouco comum, ou seja, as flores (e os subsequentes frutos) nascem no tronco principal ou nos ramos que lhe estão próximos.
Onde ocorre?
O cacaueiro ocorre na bacia hidrográfica do rio Amazonas até regiões tropicais da América Central e Norte. É uma espécie amplamente cultivada e comercializada em vários estados do Brasil.
Chocolates e outras delícias
O cacau é a principal matéria-prima do chocolate, feito por meio da torra e moagem das suas amêndoas secas em processo industrial ou caseiro. Outros subprodutos do cacau incluem, por exemplo, sua polpa, suco, geléia, destilados finos e sorvete.
Martius: o "chocolatier"
Martius visitou cacaueiros plantados ('mansos') e silvestres ('bravos') pelo Brasil, e fez distinções quanto ao sabor das sementes nessas duas situações, como se fosse um especialista em chocolates - um 'chocolatier'. Em alguns trechos, durante sua viagem, ele escreveu:
"Como é sabido, o cacau do Pará e do rio Negro é considerado de qualidade média ou mesmo inferior, devido ao seu paladar um tanto acre e amargo e por conter menos do azeite doce. Isto em parte é devido ao cacau daqui ser colhido de árvores silvestres mais do que de plantadas. No seu estado silvestre as plantas produzem mais de suas substâncias específicas, às quais, quanto ao cacau, deve-se acrescentar o princípio amargo, comparável à cafeína (...)."
"Em compensação, no fruto da árvore plantada acha-se mais gordura; azeites gordurosos nos frutos são produzidos em maior proporção sob cultura. As amêndoas do Maranhão, por isso, são na maior parte achatadas, menos ricas em substâncias do que as qualidades menores."
Processamento do cacau
Reportou também que o processo produtivo a partir da quebra do fruto tinha as amêndoas espremidas numa peneira para a retirada do suco, que era muito apreciado pelos indígenas. Depois as amêndoas eram postas para secar em esteiras de maranta tupé (Maranta sp.). E acrescentou:
"Ignora-se (...) o procedimento de enterrar as amêndoas a fim de chegar a uma fermentação sem acesso de muito ar, o que impede a germinação e fixa o aroma amargo. Limita-se a secar as sementes no sol, deixa até de mexê-las para que todas igualmente fiquem em contato com o ar. Na coleta do cacau silvestre este preparo muitas vezes se tornaria difícil nas condições locais, porque nas vargens úmidas das matas de igapó faltam espaços secos livres e os coletores às vezes são restringidos à canoa".
Outras sementes divinas
Martius observou também que a coleta de cacau silvestre na Amazônia misturava outras espécies. "Devo acrescentar ainda que embora a maior parte do cacau daquela região proceda de Theobroma cacao, sem dúvida misturam os coletores também as sementes de outras espécies(...)".
Martius escreveu em relação a essa mistura de sementes: "Achei o Theobroma bicolor, descoberto por Humboldt e Bonpland na província Choco, também perto da barra do rio Negro, em Manacuru e no Japurá em estado silvestre, e além deste encontrei ainda várias outras espécies de cacau (...)".
Vários frutos de cacau abertos (2019-03-12), de Rodrigo FloresFonte original: Unsplash
Legado de Martius para o cultivo do cacau
Ao documentar as técnicas tradicionais de cultivo e processamento, além das diferenças entre o cacau silvestre e plantado, Martius reconheceu a importância do cacau como uma planta valiosa e incentivou seu cultivo no Brasil.
Pesquisa e redação: Luiza F. A. de Paula (Universidade Federal de Minas Gerais / CRIA)
Montagem: Luiza F. A. de Paula
Revisão: João Renato Stehmann (Universidade Federal de Minas Gerais), Renato De Giovanni (CRIA)
Referências: Flora Brasiliensis (http://florabrasiliensis.cria.org.br/opus), Viagem pelo Brasil (https://www2.senado.leg.br/bdsf/handle/id/573991)
Informações adicionais: http://florabrasiliensis.cria.org.br/stories
Agradecimentos: Todos os autores das fotos e personagens da história
*Todos os esforços foram feitos para creditar as imagens, áudios e vídeos e contar corretamente os episódios narrados nas exposições. Caso encontre erros e/ou omissões, favor entrar em contato pelo e-mail contato@cria.org.br